Em junho de 2025, a China autorizou a comercialização da mazdutida, um medicamento inédito que combina os hormônios GLP‑1 e glucagon, e que ainda não está disponível no Ocidente. Nos Estados Unidos, um estudo de fase 2 publicado na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology avaliou o desempenho da droga em voluntários americanos, revelando perdas de peso expressivas com doses superiores às usadas na Ásia.
Mecanismo inovador da mazdutida
A mazdutida difere dos já conhecidos semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) ao combinar duas vias hormonais distintas. Enquanto o GLP‑1 atua reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento gástrico, o glucagon, tradicionalmente associado ao aumento da glicemia, também estimula o gasto energético e a oxidação de gordura, sobretudo no fígado.
Essa dupla ação cria um “duplo motor”: o GLP‑1 controla a ingestão de alimentos e mantém a glicose estável, já o glucagon acelera o metabolismo basal, favorecendo a queima de calorias mesmo em repouso. A estratégia foi desenvolvida nos laboratórios da americana Eli Lilly, que licenciou os direitos de exploração à chinesa Innovent Biologics para o mercado asiático.
Resultados do estudo de fase 2 nos Estados Unidos
O ensaio clínico envolveu 179 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, mas sem diabetes tipo 2. Os participantes, com idade média de 48 anos e predominância feminina (cerca de dois terços), foram randomizados para receber injeções semanais de placebo ou mazdutida em três esquemas de dose: 3 mg (aumentados para 6 mg na fase final), 10 mg e 16 mg.
Na avaliação de 32 semanas, ponto de corte do objetivo primário, o grupo placebo perdeu apenas 0,9 % do peso corporal. Em contraste, as reduções foram de 7,3 % na dose baixa, 15,6 % na dose intermediária e 18,1 % na dose máxima. Para um indivíduo de 100 kg, isso equivale a uma perda de aproximadamente 7 kg, 16 kg e 18 kg, respectivamente, em pouco mais de sete meses.
Ao término de 48 semanas, quase metade dos participantes nas doses de 10 mg e 16 mg apresentaram perda de peso superior a 20 %, enquanto apenas 3 % do grupo placebo atingiu esse marco. A circunferência da cintura diminuiu em média 17 cm, acompanhada de melhora significativa nos marcadores glicêmicos.
Importante notar que as curvas de perda de peso ainda não haviam atingido platô ao final do estudo, sugerindo que reduções ainda maiores poderiam ser observadas em ensaios mais longos e com maior número de pacientes.
Efeitos colaterais e considerações de dose
Como ocorre com a maioria dos agonistas do receptor GLP‑1, os efeitos adversos mais frequentes foram de natureza gastrointestinal: náuseas, vômitos e diarreia. Na maioria dos casos, esses sintomas foram leves a moderados e tendiam a melhorar com o tempo.
- Náusea – relatada por cerca de 30 % dos participantes;
- Vômito – observado em aproximadamente 15 %;
- Diarreia – presente em 12 % dos casos.
Entretanto, a dose de 16 mg mostrou uma taxa de descontinuação mais alta: um em cada cinco participantes abandonou o tratamento devido à intolerância gastrointestinal. Essa taxa de abandono levanta dúvidas sobre o ganho marginal de eficácia (18,1 % versus 15,6 % de perda de peso) quando comparado ao aumento de toxicidade.
Os autores do estudo ressaltam que, por se tratar de um ensaio de fase 2, a amostra ainda é limitada e não permite conclusões sobre desfechos clínicos de longo prazo, como redução de eventos cardiovasculares ou mortalidade.
Perspectivas para o Brasil e o futuro da terapia
No Brasil, a mazdutida ainda não possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e não há previsão de lançamento nos próximos meses. Consumidores que encontrarem produtos com esse nome no mercado local devem estar cientes de que a procedência não é garantida.
Comparações diretas entre mazdutida, semaglutida e tirzepatida permanecem preliminares, pois os estudos foram conduzidos em populações distintas e com protocolos diferentes. O que se pode afirmar, entretanto, é que a introdução de um terceiro caminho hormonal amplia o leque de opções para o tratamento da obesidade, oferecendo a chance de encontrar combinações mais equilibradas entre eficácia, tolerabilidade e, futuramente, preço.
O próximo passo científico será a realização de ensaios de fase 3, com maior número de participantes e acompanhamento por vários anos, a fim de validar a segurança a longo prazo e demonstrar benefícios concretos em eventos cardiovasculares e mortalidade.
Enquanto isso, profissionais de saúde devem acompanhar de perto as publicações emergentes e orientar pacientes sobre os riscos e benefícios de cada terapia, lembrando que a mudança de estilo de vida continua sendo a base de qualquer estratégia de perda de peso.








