Melisa Gaona, de 26 anos, decidiu solicitar a eutanásia em Bogotá em 2025, após uma década de sofrimento intenso causado por endometriose avançada. O pedido, formalizado em um hospital público, gerou debate nacional sobre o direito à morte digna e a negligência no tratamento da dor crônica. Seu caso expõe lacunas do sistema de saúde colombiano e a realidade de milhões de mulheres que convivem com a doença.
Diagnóstico tardio e o impacto da endometriose
Melisa começou a sentir desconfortos ainda na infância, mas foi somente após a primeira menstruação, aos dez anos, que os sintomas se intensificaram. As dores eram descritas como “cólicas que não passam”, acompanhadas de queimação ao urinar, dificuldade para evacuar e incapacidade de manter a postura ereta por longos períodos.
Mesmo com a gravidade dos sinais, os profissionais de saúde inicialmente descartaram a possibilidade de uma condição grave, rotulando‑a como hipocondríaca ou atribuindo os episódios a simples cólicas menstruais. Essa falta de reconhecimento retardou o diagnóstico formal, que só foi confirmado em 2024, após múltiplas consultas, exames de imagem e intervenções cirúrgicas.
Os efeitos da doença avançada se manifestaram em diferentes áreas da vida de Melisa:
- Incapacidade de trabalhar de forma contínua, levando à perda de renda.
- Distúrbios de sono crônicos, com noites interrompidas por dores agudas.
- Isolamento social, já que o desconforto limitava a participação em atividades familiares e de lazer.
- Comprometimento da saúde mental, com episódios de ansiedade e depressão associados ao sofrimento físico constante.
Estudos da Organização Mundial da Saúde apontam que cerca de 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva no mundo sofrem com a endometriose, o que equivale a aproximadamente uma em cada dez. No entanto, o intervalo médio entre o surgimento dos primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo varia de seis a dez anos, segundo pesquisas publicadas no New England Journal of Medicine.
O pedido de eutanásia e a reação da sociedade
Em 2025, enquanto estava internada devido a uma crise de dor aguda, Melisa escreveu um pedido de eutanásia baseado na perda de dignidade que sentia ao viver constantemente com sofrimento. Ela explicou à BBC News Brasil que a decisão não era motivada por falta de vontade de viver, mas pelo desejo de cessar a dor que a impedia de exercer qualquer atividade normal.
Para chamar a atenção das autoridades e da opinião pública, Melisa gravou um vídeo curto que rapidamente se tornou viral nas redes sociais. No material, ela descreve a sensação de estar presa em uma “espiral de sofrimento” e repete a frase que viria a marcar seu caso: “Eu não quero morrer, quero parar de sentir dor”.
A exposição trouxe apoio de grupos de direitos humanos e de pacientes que compartilham experiências semelhantes, mas também gerou reações hostis. Mensagens de estranhos incentivando o suicídio e críticas que questionavam sua dignidade foram registradas nas seções de comentários das plataformas digitais.
O pedido de eutanásia foi inicialmente recusado pelos responsáveis médicos, que alegaram que a legislação colombiana ainda não contemplava a prática para casos de dor crônica não terminal. Diante da negativa, Melisa recorreu ao DescLAB, organização que litiga pelo direito à morte digna, e entrou com uma ação de tutela para garantir seu direito ao procedimento.
Aspectos legais e o debate sobre a morte digna na Colômbia
A legislação colombiana permite a eutanásia em casos de doença terminal ou sofrimento intolerável, mas a interpretação dos critérios ainda gera controvérsia. A ação de tutela apresentada por Melisa busca ampliar a definição de “sofrimento intolerável” para incluir dores crônicas que não respondem a tratamentos convencionais.
Especialistas em direito da saúde apontam que o caso pode criar precedentes importantes para pacientes que sofrem com doenças crônicas, como fibromialgia, artrite reumatoide e, claro, endometriose avançada. A decisão judicial ainda está pendente, mas o processo já movimentou o Congresso, que começou a avaliar propostas de atualização da lei.
Organizações como a Human Rights Watch e a Associação Internacional de Cuidados Paliativos acompanharam o caso, ressaltando a necessidade de políticas públicas que priorizem o alívio da dor e o respeito à autonomia do paciente.
Reflexões de especialistas e a necessidade de mudança no manejo da dor
O neurocirurgião Pedro Henrique Cunha, citado no relato, enfatiza que frases como “eu não quero morrer, quero parar de sentir dor” revelam mais abandono do que desejo de morte. Segundo ele, pacientes que chegam a esse ponto geralmente perderam funcionalidade, autonomia, sono, emprego e esperança de melhora.
Profissionais de dor crônica recomendam abordagens multidisciplinares que incluam farmacologia avançada, terapia física, suporte psicológico e, quando necessário, intervenções cirúrgicas de remoção de lesões endometriais. No entanto, o acesso a esses recursos ainda é limitado em muitas regiões da Colômbia, especialmente em áreas rurais.
Além disso, a falta de treinamento adequado dos médicos de atenção primária contribui para a subnotificação da endometriose e o atraso no encaminhamento para especialistas. Cursos de atualização e protocolos claros são apontados como medidas urgentes para reduzir o tempo de diagnóstico.
Em entrevista, Melisa ressaltou que a luta não é apenas por sua própria vida, mas por todas as mulheres que sofrem em silêncio. “Eu tenho dignidade porque sei o que é sentir dor”, afirmou, reforçando que a dignidade está intrinsecamente ligada ao reconhecimento e ao tratamento adequado da condição.
O caso continua a ser monitorado por organizações de direitos humanos, pela comunidade médica e pelos legisladores, que buscam equilibrar o respeito à autonomia individual com a proteção da vida. Enquanto a decisão judicial não é publicada, a história de Melisa serve como um alerta sobre a urgência de melhorar o manejo da dor crônica e garantir que nenhum paciente seja deixado sem opções viáveis de alívio.








