O Japão solicitou nesta quinta‑feira, 10 de julho, a revisão de um novo mapa‑múndi adotado pela Organização das Nações Unidas, alegando que a representação das Ilhas Curilas indica que o território pertence à Rússia. A medida foi anunciada em Tóquio, durante coletiva de imprensa do Ministério das Relações Exteriores.
Contexto da nova cartografia da ONU
A Assembleia Geral da ONU aprovou na sexta‑feira passada uma resolução que visa substituir a tradicional projeção de Mercator por um modelo cartográfico que reflita melhor as dimensões reais dos continentes. Essa iniciativa contou com o apoio de 164 países, entre eles o Japão, que inicialmente votou a favor.
O novo desenho, baseado na projeção Equal Earth, destaca África, América Latina, sul da Ásia e Oceania, ampliando visualmente essas regiões que antes eram subrepresentadas. Por outro lado, as áreas de altas latitudes, como a Europa e a América do Norte, perdem parte da distorção que antes as fazia parecer maiores.
A mudança foi motivada por críticas de geógrafos e educadores, que apontavam que a projeção de Mercator favorece interesses econômicos ao exagerar territórios ricos em recursos e poder político. Além disso, a nova abordagem busca melhorar a percepção dos estudantes sobre a real distribuição de população e recursos no planeta.
Em 2018, um grupo de cartógrafos desenvolveu a projeção Equal Earth, que preserva áreas e formas de maneira mais equilibrada, sem criar as distorções extremas da projeção tradicional. Desde então, várias instituições acadêmicas adotaram o modelo como padrão em seus materiais didáticos.
Objeções do Japão e implicações diplomáticas
Apesar de ter apoiado a resolução, o Japão apresentou objeções formais ao mapa porque as Ilhas Curilas aparecem com a mesma tonalidade da Rússia, o que pode ser interpretado como reconhecimento da soberania russa sobre o arquipélago. O governo japonês descreveu a situação como “potencialmente enganosa” e solicitou correções imediatas.
O porta‑voz Kihara afirmou que o Japão enviou um protesto ao responsável pelo site onde o mapa está hospedado, utilizando canais diplomáticos para exigir a alteração da cor das ilhas. Ele ressaltou que a medida visa evitar a disseminação de “ideias equivocadas” sobre os territórios disputados.
As Ilhas Curilas, conhecidas no Japão como Territórios do Norte, foram ocupadas em 1945 pela União Soviética, que expulsou a população japonesa. Desde então, o Japão tem mantido reivindicações sobre quatro das ilhas, enquanto a Rússia controla todas elas.
As tensões entre os dois países aumentaram recentemente, quando o presidente Vladimir Putin fez uma visita surpresa às ilhas, gerando protestos em Tóquio. A primeira‑ministra japonesa, Sanae Takaichi, classificou a ação como “absolutamente inaceitável” e convocou o embaixador russo para prestar explicações.
Em resposta, Moscou acusou o Japão de politicizar questões cartográficas e afirmou que o mapa reflete a realidade geopolítica atual. O Ministério das Relações Exteriores russo ainda não se pronunciou oficialmente sobre o pedido de revisão.
- Data da solicitação: 10 de julho
- Entidade envolvida: ONU
- Território em disputa: Ilhas Curilas
- Países envolvidos: Japão e Rússia
Perspectivas e reações internacionais
Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a adoção do novo mapa‑múndi, argumentando que ainda há necessidade de consenso sobre a melhor projeção cartográfica. Essa posição isolada destaca a complexidade de alinhar interesses geopolíticos com objetivos científicos.
Outros membros da ONU, como a França e a Alemanha, manifestaram apoio ao esforço de tornar a representação do globo mais equitativa, mas ainda aguardam detalhes sobre como a correção das cores será implementada. Eles sugeriram que a ONU crie um comitê técnico para revisar a cartografia antes de sua publicação final.
Especialistas em direito internacional apontam que a disputa sobre as Ilhas Curilas pode influenciar futuras negociações de tratados marítimos e acordos de pesca. A correta demarcação dos territórios em mapas oficiais pode ter repercussões em reivindicações de recursos naturais, como gás e petróleo.
Enquanto isso, organizações não‑governamentais que promovem a educação geográfica celebram a adoção da projeção Equal Earth, destacando seu potencial para melhorar a compreensão pública da diversidade territorial. Elas recomendam que escolas adotem o novo mapa como ferramenta pedagógica.
Analistas de relações internacionais sugerem que o incidente pode servir como ponto de partida para um diálogo mais amplo entre Japão e Rússia, abordando não apenas questões cartográficas, mas também acordos de cooperação econômica e segurança regional. No entanto, a desconfiança histórica ainda representa um obstáculo significativo.
Em síntese, o pedido de revisão do mapa‑múndi evidencia como representações visuais podem se tornar arena de disputas diplomáticas. A decisão da ONU sobre a correção das cores das Ilhas Curilas será observada de perto por governos, acadêmicos e ativistas, que esperam um desfecho que respeite tanto a precisão cartográfica quanto as sensibilidades políticas.








