Uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial está transformando a fertilização in vitro (FIV) no Brasil, reduzindo o tempo de tratamento e o número de tentativas sem sucesso. O avanço foi observado em casos recentes, como o da advogada Suellen Prado Vecchi, que conseguiu engravidar em menos ciclos após a adoção dessas tecnologias. As mudanças estão acontecendo nas clínicas de todo o país, principalmente nas que já incorporaram softwares de análise de óvulos e embriões.
Como a IA está inserida nas etapas da FIV
A fertilização in vitro tradicionalmente compreende quatro fases críticas: estimulação ovariana, coleta de óvulos e espermatozoides, cultivo embrionário e transferência do embrião ao útero. Cada uma delas exige decisões precisas que, até pouco tempo, dependiam exclusivamente da experiência do embriologista.
Com a inteligência artificial, esses momentos ganharam apoio de algoritmos que analisam milhares de imagens microscópicas em segundos, identificando padrões invisíveis ao olho humano. O resultado é uma padronização maior e decisões mais embasadas.
- Estimulação ovariana: softwares de IA calculam a dose ideal de hormônios com base no histórico hormonal da paciente, idade e parâmetros de reserva ovariana.
- Coleta de gametas: algoritmos avaliam a morfologia dos óvulos e espermatozoides, selecionando aqueles com maior probabilidade de fertilização.
- Cultivo embrionário: a IA monitora o desenvolvimento dos embriões em incubadoras inteligentes, como o Embryoscope, gerando relatórios de crescimento, taxa de divisão celular e qualidade de blastocisto.
- Transferência: modelos preditivos indicam o dia mais favorável para implantar o embrião, sincronizando com a receptividade endometrial.
Especialistas afirmam que, embora a tecnologia não substitua o olhar clínico, ela reduz a subjetividade e aumenta a taxa de sucesso em até 20% em clínicas que a utilizam em todas as fases.
Impactos econômicos e desafios de acesso
O custo de um ciclo completo de FIV ainda é elevado no Brasil, variando entre R$ 15 mil e R$ 45 mil, dependendo da clínica, da medicação e do acompanhamento especializado. A introdução da IA acrescenta um valor adicional de R$ 1.500 a R$ 2.000 por ciclo, o que pode representar um aumento de até 13% no investimento total.
Para a paciente Suellen, cada ciclo custou cerca de R$ 30 mil, totalizando R$ 180 mil ao longo de seis tentativas. Apesar do valor, ela destaca que “a recompensa vale qualquer preço”. Essa percepção, no entanto, não é universal, já que muitas famílias ainda consideram o tratamento financeiramente inviável.
Planos de saúde não cobrem a reprodução assistida, pois o procedimento não está incluído no rol da ANS. Em casos específicos, como pacientes oncológicos que precisam congelar gametas antes de iniciar quimioterapia, há possibilidade de reembolso mediante decisão judicial, mas esse caminho é complexo e demorado.
A difusão da IA nas clínicas brasileiras ainda é incipiente. A empresa canadense Future Fertility relata que sua plataforma está presente em 58 clínicas no país, enquanto a FertGroup afirma usar IA em todas as suas 15 unidades. A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) ainda não dispõe de dados consolidados sobre a adoção da tecnologia.
Depoimento de quem viveu a experiência
Suellen Prado Vecchi, 39 anos, enfrentou quatro ciclos de FIV e seis transferências de embriões antes de conseguir a primeira gestação, processo que durou quase dez meses. Na segunda tentativa, com o apoio da IA, foram necessárias apenas duas FIVs, uma transferência e quatro meses para alcançar a gravidez.
Ela relata que, antes da tecnologia, a seleção de óvulos, espermatozoides e embriões era feita “a olho nu”, sujeita a interpretações diferentes entre profissionais. “Com a IA, os padrões de simetria e granulosidade são analisados de forma objetiva, o que dá mais confiança ao embriologista”, explica Oscar Duarte, diretor médico da FertGroup.
Os filhos de Suellen, Giovanni, de 2 anos, e Daniel, de 4 meses, nasceram após o uso de incubadoras avançadas que simulam as condições uterinas, como temperatura, pH e gases. O monitoramento contínuo dessas condições, aliado à IA, permitiu escolher o embrião com maior potencial de implantação.
Apesar dos avanços, Suellen destaca que o preço ainda é um obstáculo. “Cada ciclo custou R$ 30 mil, mas a recompensa de segurar meus filhos nas mãos compensa tudo”. Ela também enfatiza a importância de que mais clínicas adotem a tecnologia para reduzir o número de ciclos frustrados e, consequentemente, o custo emocional e financeiro das famílias.
O panorama atual indica que a inteligência artificial está caminhando para se tornar um padrão de qualidade nas unidades de reprodução assistida. Contudo, a consolidação dependerá de políticas públicas que incentivem a redução de custos, da ampliação do acesso a seguros de saúde e da geração de dados robustos que comprovem a eficácia da IA em larga escala.








