Um levantamento do G1, baseado nos dados do portal DivulgaCand do TSE, revelou que 34% dos doadores da campanha de Flávio Bolsonaro em 2026 também contribuíram para a candidatura de seu pai, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2022. O estudo cobre o período de 2022 a 2026 e traz detalhes sobre a origem dos recursos, os valores envolvidos e a comparação com o financiamento da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Perfil dos doadores de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro recebeu apoio financeiro de 462 pessoas físicas diferentes. Dentre elas, 161 também doaram para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022, o que corresponde a um terço dos contribuintes. A maioria desses apoiadores são empresários, presidentes de empresas e executivos ligados ao agronegócio.
Dezenove doadores recorrentes fizeram aportes superiores a R$ 100 mil. Treze dessas doações foram realizadas após o primeiro turno, em 4 de outubro, quando Flávio já liderava nas urnas. Os valores mais expressivos, entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão, vieram de figuras de destaque no setor privado.
- Alexandre Grendene Bartelle – cofundador da Grendene, bilionário do setor de calçados.
- Fernando de Castro Marques – presidente da farmacêutica União Química.
- Gilson Lari Trennepohl – dono da Stara, uma das maiores fabricantes de máquinas agrícolas da América Latina.
Esses três nomes concentram a maior parte dos recursos de alto valor, reforçando a conexão entre a campanha de Flávio e o segmento agroindustrial. As demais doações recorrentes, ainda que menores, mantêm a mesma lógica de apoio a candidatos alinhados com a agenda econômica liberal.
Financiamento de Lula: recorrência e valores
Lula recebeu apoio de 571 pessoas físicas em 2026, número que inclui 139 doadores que já haviam contribuído em 2022. Apenas oito desses financiadores mantiveram o apoio nas duas eleições, representando 1,4% do total de doadores individuais.
Os oito doadores recorrentes têm estreita ligação com o governo. Eles ocupam cargos de assessoramento, ex‑ministros ou posições estratégicas em instituições públicas, como o BNDES.
- Celso Amorim – assessor especial para assuntos internacionais.
- Aloizio Mercadante – presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
- Miriam Belchior – ministra da Casa Civil.
Os valores das doações ao petista variam de R$ 1 mil a R$ 27 mil, muito abaixo dos aportes de grande escala observados na campanha de Flávio. Essa diferença evidencia um padrão de financiamento mais disperso e menos concentrado em grandes empresários.
Comparativo e implicações políticas
Ao comparar os dois cenários, fica evidente que o candidato do PL depende de um núcleo mais restrito e poderoso de financiadores, enquanto o presidente Lula conta com uma base mais ampla, porém com menor peso individual. Essa diferença pode influenciar estratégias de campanha, prioridades de políticas públicas e a percepção de independência dos candidatos.
Além disso, o fato de um terço dos doadores de Flávio terem apoiado Jair Bolsonaro em 2022 indica uma continuidade de redes de apoio dentro do espectro conservador. Já a recorrência de apenas 1,4% dos doadores de Lula sugere que a base de apoio do petista é menos estável em termos de financiamento direto.
É importante lembrar que o TSE ainda não recebeu a prestação de contas completa do primeiro turno, cujo prazo final é 3 de novembro. As informações sobre o segundo turno podem ser enviadas entre 26 de outubro e 14 de novembro, o que pode alterar os números apresentados.
Transparência e regras de financiamento
Qualquer pessoa física pode apoiar financeiramente candidaturas, desde que a doação seja identificada e rastreável. Doações de empresas continuam proibidas, o que reforça a importância da transparência nas contas de campanha.
O levantamento não inclui recursos arrecadados por meio de vaquinhas eleitorais, pois esses valores são registrados de forma agrupada, dificultando a identificação de doadores individuais. Essa lacuna pode mascarar parte do financiamento real das campanhas.
Em síntese, o panorama de financiamento revela duas estratégias distintas: uma baseada em grandes aportes de empresários do agronegócio e outra sustentada por um conjunto mais diversificado de apoiadores ligados ao governo. A continuidade ou mudança desses padrões será observada nas próximas prestações de contas e poderá influenciar o debate sobre a influência do dinheiro nas eleições brasileiras.








