Doze organizações médicas, entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a International Menopause Society (IMS), apresentaram nesta quinta‑feira, 1º de maio, um pedido formal à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que sejam proibidos os implantes hormonais manipulados no país. O documento, divulgado publicamente, reúne assinaturas de especialistas de diferentes continentes e evidencia uma preocupação crescente com a prática de manipulação de hormônios para uso em mulheres no climatério e na menopausa.
Preocupações das entidades médicas
Os signatários alertam que a oferta de implantes contendo testosterona, gestrinona, estradiol e outras substâncias tem se expandido rapidamente, muitas vezes sem respaldo científico. Esses dispositivos são anunciados como soluções para sintomas da menopausa, disfunção sexual, emagrecimento, ganho de massa muscular, aumento de disposição, desempenho físico e até como estratégias de antienvelhecimento.
Entretanto, a carta destaca a ausência de ensaios clínicos de qualidade que comprovem a eficácia ou a segurança desses produtos. Sem estudos controlados, não há como garantir que os benefícios divulgados sejam reais ou que os riscos estejam adequadamente mitigados.
A terapia hormonal tradicional, quando indicada por um endocrinologista e baseada em formulações registradas, continua sendo reconhecida como tratamento legítimo e eficaz. Ela possui evidência robusta que demonstra melhora na qualidade de vida das mulheres, reduzindo sintomas como ondas de calor, alterações de humor e risco de osteoporose.
Riscos associados aos implantes manipulados
Os documentos apontam uma série de perigos potenciais que surgem quando se utiliza um implante não estudado. Entre os principais, destacam‑se:
- Falta de controle sobre a dose efetivamente absorvida, podendo gerar concentrações supra‑fisiológicas;
- Dificuldade de interromper a liberação hormonal após a inserção, ao contrário de comprimidos ou géis;
- Possibilidade de remoção incompleta, especialmente de pellets bioabsorvíveis que se fragmentam sob a pele;
- Ausência de dados sobre proteção endometrial e mamária, risco cardiovascular, hepático, tromboembolismo, AVC, alterações lipídicas e potencial oncogênico;
- Incerteza quanto à estabilidade, esterilidade, pureza e biodisponibilidade do produto final.
Além disso, o termo “bioidêntico”, frequentemente usado como estratégia de marketing, não garante que o produto seja equivalente a um medicamento registrado. A falta de padronização entre lotes e a inexistência de estudos de longo prazo aumentam a vulnerabilidade das pacientes.
Os profissionais de saúde relatam que o atendimento de pacientes com efeitos adversos decorrentes desses implantes tornou‑se rotina diária nos consultórios. Sintomas como sangramento irregular, dor local, alterações de humor intensas e sinais de toxicidade hepática têm sido observados com frequência crescente.
Recomendações à Anvisa e ao setor de saúde
O posicionamento conjunto solicita à Anvisa a adoção de medidas imediatas, incluindo:
- Proibição da manipulação, comercialização e publicidade de implantes hormonais não registrados;
- Intensificação da fiscalização em farmácias de manipulação e laboratórios que produzem esses dispositivos;
- Criação de campanhas de conscientização para profissionais e pacientes sobre os riscos associados;
- Estabelecimento de penalidades rigorosas para quem descumprir as normas.
As entidades também enfatizam que a manipulação só deve ser considerada quando houver necessidade clínica individual que não possa ser atendida por medicamentos já registrados. Qualquer produção em escala, padronização comercial de protocolos ou treinamento de prescritores para promover esses implantes fere princípios éticos e de segurança.
Por fim, o documento reforça a importância de que a comunidade médica continue a divulgar informações baseadas em evidências, incentivando a escolha por terapias hormonais que tenham passado por avaliação regulatória rigorosa. Essa postura visa proteger a saúde das mulheres e garantir que o mercado de produtos hormonais opere dentro dos padrões de qualidade exigidos por lei.








