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El Niño pode cortar 10% da produção de soja no Brasil, alerta Serasa

Um estudo da Serasa Experian indica que a safra de soja 2026/27 no Brasil pode ser reduzida em até 10% devido a um forte evento de El Niño. A projeção foi divulgada na terça‑feira, 27 de outubro, e considera o impacto nas principais regiões produtoras do país. Os analistas utilizam dados climáticos e agronômicos para modelar diferentes cenários.

Cenário climático e projeções de produção

O fenômeno El Niño traz consigo temperaturas acima da média e déficit de chuvas em grande parte do território nacional. Segundo o relatório, a área plantada deve crescer 1,8%, passando para 49,9 milhões de hectares, o que representa um acréscimo de 900 mil hectares em relação à safra anterior.

Entretanto, o ganho de área não compensa a queda de produtividade esperada nas fases críticas de desenvolvimento das plantas. O estudo aponta que a falta de precipitação nos meses de desenvolvimento vegetativo pode reduzir a produção de grãos por hectare em até 8%.

Os pesquisadores destacam que o risco climático não se limita ao período de plantio, mas se estende ao florescimento e à formação dos grãos, que ocorrem entre novembro e dezembro. Essa fase exige umidade suficiente para garantir a polinização e o enchimento dos grãos.

Além disso, a Serasa ressalta que a variabilidade das chuvas pode gerar bolsões de seca ainda mais intensos em áreas tradicionalmente produtivas. O modelo de projeção incorpora diferentes intensidades de El Niño, permitindo estimar perdas em cenários moderados e extremos.

Em comparação com a última ocorrência de El Niño forte, em 2024, a queda de produtividade naquele ano foi de 8,3%, segundo a Conab. O atual estudo projeta um impacto ainda maior, devido ao aumento da superfície cultivada e à maior vulnerabilidade de algumas regiões.

Impactos regionais e perdas estimadas

O Centro‑Oeste brasileiro, principal celeiro da soja, deve registrar as maiores perdas. Mato Grosso, responsável por cerca de 30% da produção nacional, pode deixar de produzir 9,7 milhões de toneladas.

Goiás, outro estado de destaque, tem estimada uma redução de 4 milhões de toneladas, conforme os cálculos da Serasa. Esses números representam uma diminuição significativa da oferta interna.

Outros estados que devem enfrentar queda de produtividade incluem Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia e Maranhão. A lista completa está apresentada a seguir:

  • Mato Grosso – perda de 9,7 milhões de toneladas
  • Goiás – perda de 4,0 milhões de toneladas
  • Paraná – redução estimada
  • São Paulo – redução estimada
  • Minas Gerais – redução estimada
  • Mato Grosso do Sul – redução estimada
  • Bahia – redução estimada
  • Maranhão – redução estimada

No sul do país, o cenário se inverte. O Rio Grande do Sul pode registrar um aumento de produção de 5,5 milhões de toneladas, já que a região costuma receber mais chuvas durante eventos de El Niño.

Quatro unidades da federação, entre elas o Rio Grande do Sul, podem apresentar pequenos ganhos, enquanto treze estados sofrerão perdas. Essa heterogeneidade reforça a necessidade de estratégias regionais diferenciadas.

Os produtores de Mato Grosso relataram que a segunda quinzena de outubro foi usada para avançar no plantio, trazendo um breve alívio. Ainda assim, os especialistas alertam que o risco climático persiste até o final da safra.

Daniel de Oliveira, gerente de geoprocessamento agro da Serasa Experian, enfatiza que a preocupação agora se desloca da fase de plantio para a distribuição das chuvas ao longo do ciclo da cultura. Ele destaca que a “normalidade” observada até o momento pode ser temporária.

Em resumo, a combinação de expansão de área e queda de produtividade pode resultar em uma produção total de 163,6 milhões de toneladas, contra 181,2 milhões de toneladas projetadas em condições normais.

Consequências econômicas e perspectivas de mercado

O prejuízo financeiro estimado para o setor chega a R$ 33 bilhões, considerando os preços médios de agosto. Esse valor reflete tanto a perda de volume quanto o impacto nos preços internacionais da soja.

Contudo, a Serasa alerta que a redução da oferta pode impulsionar os preços no mercado global, potencialmente mitigando parte das perdas para os exportadores. Historicamente, episódios de baixa safra elevam os preços futuros.

Os exportadores brasileiros podem se beneficiar de margens mais altas, mas os produtores internos enfrentarão custos maiores de produção e menor rentabilidade. A dinâmica entre oferta reduzida e demanda internacional será crucial nos próximos meses.

Além do aspecto financeiro, há implicações para a balança comercial do país, já que a soja representa uma parcela significativa das exportações agrícolas. Uma safra menor pode impactar a entrada de divisas e a taxa de câmbio.

Os analistas de mercado recomendam atenção ao calendário de negociações de contratos futuros, que tende a reagir rapidamente a notícias climáticas. Estratégias de hedge podem ser essenciais para proteger os produtores contra a volatilidade de preços.

Em termos de política pública, o governo federal pode precisar revisar programas de apoio ao agricultor, como linhas de crédito e seguros agrícolas. A ampliação da cobertura de seguros pode reduzir a vulnerabilidade dos pequenos produtores.

Adicionalmente, a Conab pode ajustar suas estimativas de estoque e de necessidade de importação de insumos, como fertilizantes, que também são sensíveis a variações de preço.

O cenário de 2026/27, portanto, traz desafios tanto para o agronegócio quanto para a economia nacional, exigindo respostas coordenadas entre setor privado e público.

O que os produtores podem fazer

Antecipar o plantio nas áreas que ainda não foram semeadas pode ajudar a aproveitar eventuais janelas de chuva. Muitos agricultores já avançaram o calendário de plantio para reduzir a exposição ao risco.

Adotar práticas de conservação de solo, como plantio direto e cobertura vegetal, pode melhorar a retenção de água e reduzir o estresse hídrico das plantas. Essas técnicas têm se mostrado eficazes em regiões com déficit pluviométrico.

Investir em tecnologias de monitoramento climático, como sensores de umidade e estações meteorológicas de precisão, permite ajustes mais rápidos nas estratégias de manejo. O uso de aplicativos de previsão de chuva pode orientar decisões de irrigação.

Considerar a adoção de cultivares mais resistentes à seca pode ser uma medida de longo prazo. Programas de melhoramento genético têm desenvolvido linhas com maior eficiência no uso de água.

Explorar alternativas de seguros paramétricos, que pagam automaticamente quando certos indicadores climáticos são atingidos, pode reduzir a necessidade de processos burocráticos demorados. Essa modalidade tem ganhado espaço no agronegócio brasileiro.

Por fim, manter um canal de comunicação aberto com cooperativas e associações de produtores facilita o acesso a informações atualizadas e a soluções conjuntas. A troca de experiências tem sido fundamental em temporadas climáticas adversas.

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