A nova Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria foi apresentada neste mês em Rio de Janeiro, durante o Congresso Mundial de Cardiologia. Ela traz recomendações específicas para pacientes com 70 anos ou mais que convivem com doenças cardíacas. O documento enfatiza que a idade, por si só, não deve determinar o tratamento, mas sim o modo como o idoso vive esses anos.
Avaliação da fragilidade em idosos com doença cardíaca
Um dos pilares da diretriz é a avaliação da fragilidade em todos os pacientes acima de 70 anos que têm problemas no coração. A fragilidade é entendida como a perda de reservas fisiológicas que transforma uma simples gripe ou queda em um evento grave. Os sinais de alerta são simples e podem ser observados no dia a dia.
- Andar cada vez mais devagar
- Dificuldade para abrir potes ou segurar objetos
- Necessidade de apoio ao levantar da cadeira
- Perda de peso não intencional
Quando qualquer desses sinais aparecer, o médico deve investigar a causa e ajustar o plano de cuidados. A avaliação não substitui o diagnóstico clínico, mas orienta intervenções que preservam a autonomia do idoso.
Importância da atividade física e do controle de medicamentos
Estudos internacionais apontam que entre 40% e 60% das pessoas acima de 65 anos utilizam cinco ou mais medicamentos simultaneamente. Esse cenário, conhecido como polifarmácia, aumenta o risco de quedas, confusão mental e internações hospitalares. A diretriz recomenda que o paciente leve a consulta com todos os fármacos, suplementos, chás e fitoterápicos que realmente consome.
- Leve tudo em uma sacola ao médico
- Pergunte: “Ainda preciso de todos esses remédios?”
- Não suspenda nenhum medicamento sem orientação profissional
Além da revisão medicamentosa, a prática regular de atividade física é considerada parte essencial do tratamento. Caminhadas diárias, exercícios de força adaptados e alongamentos ajudam a proteger o coração, manter a massa muscular e melhorar o humor. Antes de iniciar qualquer programa, o idoso deve conversar com seu cardiologista para definir a intensidade segura.
Cuidados com pressão arterial e saúde mental
Um capítulo inovador da diretriz trata dos desmaios e da hipotensão ortostática, que ocorrem quando a pressão arterial cai ao levantar-se rapidamente. Para evitar esses episódios, recomenda‑se que o paciente permaneça sentado na beira da cama por alguns minutos antes de ficar em pé. Medir a pressão arterial tanto em repouso quanto em pé permite ajustes precisos na terapia anti‑hipertensiva.
A saúde mental também recebeu atenção especial. Tristeza persistente e ansiedade não são parte inevitável do envelhecimento; ao contrário, podem triplicar o risco de obstrução arterial. O documento incentiva a triagem regular de depressão e ansiedade, bem como a oferta de apoio psicológico quando necessário.
Participação ativa do paciente e da família
Decisões compartilhadas são o centro da nova abordagem. O idoso deve expressar suas prioridades – viver mais, sentir-se melhor ou manter a independência – e a equipe de saúde deve respeitar essas preferências. A presença de familiares nas consultas pode facilitar a comunicação e garantir que as escolhas sejam compreendidas por todos.
Além disso, a vacinação contra gripe e pneumonia foi incorporada como medida preventiva obrigatória para pacientes cardíacos. Manter a caderneta de vacinação em dia reduz complicações respiratórias que podem desencadear eventos cardíacos.
O Brasil foi pioneiro ao publicar, em 2002, a primeira diretriz mundial de cardiologia do idoso. Duas décadas depois, o documento evoluiu, reforçando que o coração saudável não nasce com certidão, mas se constrói com hábitos, escolhas e cuidados ao longo da vida.








