Em 2025, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido entrou em profunda crise, e especialistas apontam paralelos alarmantes para o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. A médica brasileira Ana Luíza Gibertoni Cruz, que atua tanto no SUS quanto no NHS, descreve como a escassez de recursos, o envelhecimento da população e a sobrecarga dos hospitais estão moldando o futuro da saúde pública em ambos os países.
Comparação histórica entre SUS e NHS
O NHS foi criado em 1948 como um modelo pioneiro de saúde universal, inspirado em princípios de acesso gratuito e integral. Quatro décadas depois, o Brasil adotou esses ideais ao estruturar o SUS, buscando garantir atendimento gratuito a toda a população, independentemente da renda ou localização.
Apesar das origens distintas, os dois sistemas compartilham a missão de reduzir desigualdades regionais e oferecer cuidados preventivos. No entanto, enquanto o NHS enfrentou dificuldades financeiras já nas décadas de 1970 e 1980, o SUS sempre lidou com restrições orçamentárias agravadas por crises econômicas recorrentes.
Desafios atuais do NHS e lições para o Brasil
O NHS hoje sofre com listas de espera intermináveis, falta de profissionais em áreas rurais e um modelo de atenção primária que ainda depende excessivamente de hospitais. Em setembro de 2025, por exemplo, a fila para procedimentos eletivos em Manchester era oito vezes maior que a da Cornualha, revelando disparidades regionais marcantes.
Essas questões têm reflexos diretos no SUS, onde a escassez de médicos de família e a concentração de especialistas em grandes centros urbanos criam gargalos semelhantes. A médica Ana Luíza destaca que a crise britânica evidencia três fatores críticos que o Brasil também precisa enfrentar:
- Investimento insuficiente e prolongado em infraestrutura de saúde.
- Aumento da demanda devido ao envelhecimento da população.
- Necessidade de fortalecer a atenção primária para reduzir a pressão sobre hospitais.
Além disso, a digitalização tardia dos serviços de saúde impede a troca ágil de informações entre unidades, dificultando a coordenação do cuidado. O plano de reforma do NHS de dez anos, anunciado em 2025, prioriza a transferência de atendimentos para a comunidade, a aceleração da digitalização e a ênfase na prevenção de doenças crônicas.
Para o SUS, adaptar essas diretrizes significa investir em clínicas de atenção básica equipadas com prontuários eletrônicos, capacitar equipes multiprofissionais e criar programas de prevenção que reduzam a incidência de doenças como diabetes e hipertensão.
Caminhos possíveis para o fortalecimento do SUS
Uma das estratégias mais promissoras é a ampliação de unidades de saúde comunitárias, que funcionam como portas de entrada para o sistema e evitam que pacientes procurem pronto‑socorro como primeira opção. Essas unidades podem oferecer consultas de rotina, vacinação, acompanhamento de doenças crônicas e orientação nutricional.
Outro ponto crucial é a formação e retenção de profissionais nas áreas menos favorecidas. Programas de incentivo, como bolsas de estudo vinculadas a períodos de serviço em regiões carentes, podem equilibrar a distribuição de médicos, enfermeiros e técnicos.
Por fim, a integração entre setores público e privado, por meio de parcerias estratégicas, pode ampliar a capacidade de atendimento sem comprometer a universalidade do SUS. Essa cooperação deve ser regulada por contratos claros que garantam a qualidade e a equidade do serviço prestado.
Ao observar a crise do NHS, o Brasil tem a oportunidade de evitar erros semelhantes, adotando políticas preventivas, investindo em tecnologia e reforçando a atenção primária. O futuro da saúde pública dependerá da capacidade dos gestores de transformar lições internacionais em ações concretas para a população brasileira.








