Maria, uma mulher de 32 anos, descobriu em maio de 2024 que havia sido infectada deliberadamente com o vírus HIV pelo então namorado, o dentista Jean José Dunga, de 41 anos, em Porto Velho, Rondônia. O caso ganhou destaque nacional após a prisão do acusado e a subsequente condenação por crime de transmissão intencional de doença grave.
Como se deu a transmissão
O relacionamento entre Maria e Jean começou em um site de encontros online, onde a conexão aparente era rápida e intensa. Nos primeiros meses, o casal vivia momentos de aparente harmonia, com o dentista sendo descrito como carismático e sempre bem‑humorado.
Entretanto, poucos dias depois de iniciarem a convivência, Maria passou a sentir febre alta, dores musculares intensas e um cansaço inexplicável. Os sintomas se agravaram, evoluindo para infecções recorrentes que não respondiam ao tratamento antibiótico convencional.
Preocupada, ela procurou um laboratório para investigar possíveis infecções sexualmente transmissíveis. O resultado dos exames revelou, de forma inesperada, a presença do HIV em seu organismo.
O diagnóstico foi o ponto de partida para a descoberta de que Jean já carregava o vírus há cerca de dez anos, mas nunca havia iniciado a terapia antirretroviral. Segundo o Ministério Público, a omissão deliberada de tratamento teria sido uma estratégia para facilitar a transmissão a novas parceiras.
Investigação e processo judicial
As investigações foram iniciadas a partir de um acolhimento realizado no Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit), vinculado ao Ministério Público de Rondônia. Maria compareceu ao Navit em 28 de maio de 2024, buscando apoio e orientação jurídica.
Durante a entrevista, ela relatou detalhes que permitiram ao MP‑RO identificar o padrão de conduta de Jean. O órgão constatou que o dentista já era investigado por supostas transmissões a pelo menos quatro mulheres, e que novas vítimas poderiam ainda não ter sido diagnosticadas.
O inquérito policial resultou na prisão preventiva de Jean no dia 10 de junho de 2024. Inicialmente, ele cumpriu a pena em regime semiaberto, mas, em 9 de setembro de 2024, o Ministério Público requereu a mudança para regime fechado, argumentando risco iminente de novas contaminações.
A sentença, proferida em agosto de 2024, estabeleceu cinco anos de reclusão e a obrigação de pagar uma indenização de R$ 50 mil à vítima. O réu ainda responde a outras ações penais relacionadas ao mesmo crime.
- Data da prisão preventiva: 10/06/2024;
- Regime inicial: semiaberto;
- Alteração para regime fechado: 09/09/2024;
- Pena: 5 anos de reclusão;
- Indenização: R$ 50.000,00.
Impacto nas vítimas e medidas de apoio
O relato de Maria expôs o profundo impacto psicológico e físico causado pela transmissão intencional. Ela descreveu sentimentos de medo, culpa, vergonha e, sobretudo, indignação ao descobrir que o parceiro já estava sob investigação.
Além do apoio jurídico, o Navit ofereceu acompanhamento psicológico especializado, garantindo sigilo e um ambiente humanizado. O serviço também orientou as vítimas sobre direitos previdenciários, acesso a tratamento antirretroviral gratuito e possibilidade de requerer auxílio doença.
Outras mulheres que foram atendidas no Navit relataram experiências semelhantes, reforçando a necessidade de políticas públicas mais robustas para prevenção e apoio às vítimas de violência biológica.
O Ministério Público lançou, ainda, uma campanha de alerta nas unidades de saúde de Rondônia, instruindo profissionais a suspeitar de casos de transmissão intencional e a encaminhar suspeitos ao Navit para avaliação.
Repercussões e prevenção
O caso ganhou ampla cobertura da mídia nacional, despertando o debate sobre a criminalização da transmissão intencional de HIV no Brasil. Organizações de direitos humanos reforçaram a importância de combater o estigma associado à doença, ao mesmo tempo em que defendem a responsabilização dos agressores.
Especialistas em saúde pública apontam que a prevenção deve combinar educação sexual, acesso facilitado a testes rápidos e tratamento precoce, além de campanhas de conscientização sobre consentimento e responsabilidade em relacionamentos íntimos.
Para quem suspeita de ter sido vítima de transmissão intencional, as recomendações incluem:
- Buscar imediatamente um serviço de saúde para realização de exames;
- Registrar o caso em uma delegacia ou no Ministério Público;
- Procurar apoio psicológico em centros especializados como o Navit;
- Manter o histórico de contato com o suposto agressor para auxiliar nas investigações.
O desfecho judicial de Jean José Dunga serve como alerta para que outras possíveis vítimas procurem ajuda antes que a situação evolua para danos irreparáveis. A sociedade, por sua vez, tem o dever de apoiar as vítimas e garantir que a justiça seja efetiva.








