Uma investigação publicada pelo The New York Times nesta quarta-feira (28) revelou que a campanha democrata de Mary Peltola teria elaborado um plano para inserir um candidato com o mesmo nome do senador republicano Dan Sullivan nas urnas do Alasca. O objetivo, segundo o jornal, seria gerar confusão entre os eleitores antes da eleição geral marcada para 3 de novembro de 2026. A revelação provocou forte reação do presidente Donald Trump, que denunciou a suposta estratégia como tentativa de fraude eleitoral.
Estratégia da campanha democrata
A equipe de Mary Peltola, eleita senadora em 2022, teria iniciado a operação em meados de 2025. O primeiro passo consistiu em identificar, entre os residentes do estado, todas as pessoas chamadas Dan Sullivan.
- Mapear nomes em registros públicos e redes sociais;
- Entrar em contato com os indivíduos identificados;
- Convencer os potenciais candidatos a registrar candidatura;
- Considerar a criação de um novo partido para atrair eleitores conservadores.
Para executar a tarefa, assessores da campanha enviaram instruções detalhadas a um operador político que usava identidade falsa ao abordar possíveis candidatos em bares e cervejarias de comunidades remotas. O operador, segundo a reportagem, circulava com um nome fictício para ganhar confiança e, assim, persuadir os alaskanos a entrar na corrida.
Advogados da campanha e membros da cúpula do Democratic Senatorial Campaign Committee (DSCC) participaram de reuniões estratégicas. Em algumas dessas discussões, foi levantada a ideia de lançar um partido alternativo que pudesse captar eleitores descontentes com o Partido Republicano.
O plano avançou nos meses seguintes, com viagens a vilarejos costeiros e a áreas de mineração, onde os recrutadores apresentavam propostas de apoio financeiro e logístico. O objetivo explícito era fragmentar o eleitorado tradicional do senador Dan S. Sullivan, dividindo votos entre dois candidatos de mesmo nome.
Desdobramentos nas primárias do Alasca
Nas primárias realizadas em agosto de 2026, Mary Peltola liderou a disputa com 49,5% dos votos, seguida pelo senador republicano Dan S. Sullivan, que obteve 41,4%. O candidato recém‑inscrito, Dan J. Sullivan, recebeu 2,5% dos votos, equivalentes a 4.107 cédulas.
O sistema eleitoral do Alasca permite que os quatro candidatos mais votados nas primárias avancem para a eleição geral. Dessa forma, tanto Dan S. Sullivan quanto Dan J. Sullivan seguiram para a disputa final, aparecendo simultaneamente na mesma cédula.
A presença de dois Dan Sullivan na votação geral gerou dúvidas entre eleitores que, ao marcar a caixa, poderiam não perceber a diferença entre o senador incumbente e o candidato aposentado de uma pequena comunidade pesqueira. Observadores apontaram que a confusão poderia ser suficiente para reduzir o número de votos do republicano.
Especialistas em ciência política destacaram que a estratégia, ainda que controversa, não seria inédita nos Estados Unidos, onde campanhas já empregaram táticas de “candidatos de spoiler” para dividir o apoio a adversários. No entanto, a coincidência de nomes em um estado de baixa densidade populacional elevou o risco de erro de voto.
Reação de Donald Trump e implicações políticas
Imediatamente após a publicação da matéria, Donald Trump utilizou suas contas nas redes sociais para condenar a prática. O ex‑presidente afirmou que a inserção de um segundo Dan Sullivan era “ilegal” e que os democratas estavam “tentando enganar o eleitor americano”.
Trump também acusou membros da campanha de Peltola de mentirem sob juramento em processos judiciais federais. Ele exigiu que a senadora fosse responsabilizada tanto na esfera legal quanto na política, sugerindo que a prática poderia levar a sanções eleitorais.
Em comunicado oficial, a equipe de Mary Peltola negou qualquer irregularidade, alegando que a candidatura de Dan J. Sullivan era espontânea e que a campanha não ofereceu incentivos indevidos. A senadora destacou que a democracia permite a participação de qualquer cidadão que cumpra os requisitos legais.
Advogados da campanha, por sua vez, preparam documentos para contestar possíveis ações judiciais, argumentando que o processo de registro de candidatura é público e que a estratégia não violou nenhuma lei eleitoral vigente no Alasca.
Analistas apontam que a controvérsia pode ter efeitos colaterais nas eleições de meio de mandato (midterms) de 2026, especialmente nos estados onde a margem de vitória costuma ser estreita. A percepção de manipulação pode mobilizar eleitores independentes a buscar informações adicionais antes de votar.
Enquanto isso, organizações de vigilância eleitoral, como a Fair Elections Center, solicitaram ao Secretário de Estado do Alasca que avalie a necessidade de esclarecer nas cédulas a diferença entre os dois candidatos com nomes idênticos. A proposta inclui a inserção de fotos ou de descrições curtas ao lado de cada nome.
O caso também reacendeu o debate nacional sobre a necessidade de reformas no sistema de identificação de candidatos. Alguns legisladores sugerem a adoção de códigos alfanuméricos ou a obrigatoriedade de incluir a ocupação ou a cidade de origem ao lado do nome do candidato nas urnas.
Em síntese, o episódio evidencia como estratégias de campanha podem influenciar o comportamento do eleitorado, sobretudo em contextos onde a informação é limitada e a proximidade geográfica favorece abordagens pessoais. A disputa no Alasca, portanto, pode se tornar um marco para futuras discussões sobre transparência e integridade nos processos eleitorais dos Estados Unidos.
O futuro da corrida senatorial alaskense ainda depende de fatores como a mobilização dos eleitores, a eficácia das campanhas de esclarecimento e a eventual intervenção de órgãos reguladores. O que está claro é que a atenção nacional agora se volta para um estado que, apesar de sua pequena população, pode oferecer lições valiosas para a democracia americana.








