Em 22 de setembro de 2024, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, discursou na Assembleia‑Geral das Nações Unidas, em Nova York, anunciando a retomada das relações diplomáticas com os Estados Unidos e prometendo eleições no país. O pronunciamento marcou uma guinada notável em relação ao discurso adotado sete anos antes, quando a mesma funcionária do governo chavista condenava publicamente o presidente americano.
Mudança de discurso na ONU
O primeiro discurso de Delcy Rodríguez na ONU ocorreu em setembro de 2019, quando ainda era vice‑presidente. Na ocasião, ela exaltou Nicolás Maduro e acusou Donald Trump de interferir na soberania venezuelana ao reconhecer Juan Guaidó como presidente legítimo. A retórica era marcada por termos como “imperialismo norte‑americano” e “agressão externa”.
Quase sete anos depois, ao subir ao púlpito como presidente interina, Rodríguez adotou um tom completamente diferente. Ela agradeceu a Trump pela “disposição de retomar o caminho das relações diplomáticas e da cooperação com a Venezuela”. Não houve menção ao ex‑presidente dos EUA, capturado em janeiro por forças especiais americanas, nem ao episódio do julgamento que se desenrolou em Washington.
Essa mudança de postura evidencia uma estratégia de adaptação política que visa abrir espaço para acordos econômicos e garantir apoio internacional. O uso de expressões como “transformação democrática”, “república pluralista” e “democracia plena” demonstra uma tentativa de reposicionar o governo venezuelano no cenário global, afastando‑se da tradicional retórica anti‑imperialista.
Encontro com Trump e acordos estratégicos
Na noite de 22 de setembro, Delcy Rodríguez encontrou‑se com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um evento informal no mesmo complexo da ONU. O gesto simbólico – Trump levantando o polegar e Rodríguez fazendo o sinal de V – foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação como um sinal de reconciliação.
Durante o discurso, Rodríguez destacou um acordo petrolífero que permite aos EUA explorar cerca de um quinto das reservas de petróleo bruto da Venezuela. Esse acordo, ainda em fase de implementação, poderia gerar receitas significativas para o país, que enfrenta uma grave crise econômica.
Além do petróleo, foram mencionados outros pontos de cooperação:
- Investimento em infraestrutura energética;
- Programas de treinamento técnico para profissionais venezuelanos;
- Assistência humanitária para atender às necessidades básicas da população.
Essas iniciativas são vistas como parte de um esforço maior dos EUA para estabilizar a região e garantir acesso a recursos estratégicos, ao mesmo tempo em que buscam reduzir a influência de potências rivais.
Implicações políticas internas e externas
A promessa de eleições, anunciada ao final do discurso, gerou expectativas e dúvidas. Delcy não especificou um calendário, mas a simples menção ao tema sugere que a pressão internacional – especialmente dos Estados Unidos – está influenciando a agenda política venezuelana.
Enquanto isso, a líder oposicionista María Corina Machado tentava, sem sucesso, retornar ao país via Panamá. Sua situação ilustra a tensão entre a nova abertura diplomática e a repressão interna que ainda afeta opositores ao governo.
Nos Estados Unidos, a aproximação de Rodríguez tem causado desconforto entre alguns setores republicanos, que temem que a estratégia de Trump possa alienar eleitores latinos. Ao mesmo tempo, críticos apontam que a Venezuela ainda enfrenta graves violações de direitos humanos, o que poderia complicar ainda mais a relação bilateral.
Para a comunidade internacional, a guinada de Delcy Rodríguez representa um teste de como a política externa dos EUA pode influenciar regimes autoritários. A ONU observará de perto se a Venezuela cumprirá as promessas de eleições livres e se os acordos econômicos trarão benefícios reais à população.
Em síntese, a mudança de discurso de Delcy Rodríguez evidencia um cálculo político que busca equilibrar pressões internas, demandas internacionais e a necessidade de recursos econômicos. O futuro da Venezuela dependerá, em grande parte, de como esses fatores se combinarão nos próximos meses.








