No primeiro semestre de 2024, o sistema financeiro brasileiro registrou mais de 870 mil indícios de contas laranja, conforme revelou a Quod, empresa especializada em inteligência de dados para crédito. O levantamento, divulgado ao g1, cobre o período de janeiro a junho e já representa 88% dos indícios previstos para todo o ano de 2025. Essa alta concentração de suspeitas evidencia um cenário de risco crescente para bancos e consumidores.
Causas do aumento de contas laranja
Segundo Danilo Coelho, diretor de produtos e dados da Quod, a digitalização em massa da população facilitou a abertura de contas digitais, o que antes era mais restrito. A facilidade de cadastro online, aliada à necessidade de inclusão financeira, criou um ambiente propício para a exploração por fraudadores. Além disso, as contas podem ser abertas com dados verdadeiros e, posteriormente, usadas de forma ilícita, dificultando a detecção precoce.
Outro fator relevante é a velocidade com que as transações são realizadas. Quando o volume ou a frequência das movimentações diverge do perfil de renda do titular, os sistemas antifraude são acionados. Por exemplo, um cliente com renda comprovada de R$ 5 mil que movimenta R$ 100 mil em um curto período gera alertas imediatos. Esses sinais, muitas vezes, só aparecem depois que a conta já está sendo utilizada para crimes.
- Digitalização acelerada da população;
- Facilidade de abertura de contas online;
- Uso posterior de contas com dados verdadeiros para fraudes;
- Desvios de movimentação incompatíveis com a renda declarada.
Perfil dos titulares e regiões afetadas
Os dados apontam que a maior parte dos documentos associados aos indícios pertence a jovens adultos entre 18 e 34 anos, representando 62,2% dos casos. A faixa etária de 35 a 49 anos responde por 25,6%, enquanto a de 50 a 64 anos corresponde a 9,1%. Essa concentração em faixas mais jovens pode refletir maior familiaridade com serviços digitais, mas também maior vulnerabilidade a propostas enganosas.
No aspecto socioeconômico, quase seis em cada dez indivíduos envolvidos têm renda de até dois salários mínimos. Os homens representam 59% dos casos, indicando uma disparidade de gênero nas vítimas ou nos facilitadores das contas laranja. Esses números reforçam a necessidade de políticas de educação financeira direcionadas a públicos de baixa renda.
Geograficamente, o Sudeste concentra a maior parcela das transações suspeitas. São Paulo responde por 33,6% dos indícios, seguido pelo Rio de Janeiro com 14,4% e Minas Gerais com 6,5%. Essa distribuição reflete a densidade de instituições financeiras na região, mas também a atratividade de mercados mais desenvolvidos para operações ilícitas.
Como o sistema financeiro combate as fraudes
Além dos sistemas internos de antifraude, os bancos compartilham informações sobre indícios de fraude por meio de bases como o Rufra, gerida pela Quod. Esse intercâmbio permite que um alerta gerado por uma instituição seja rapidamente disseminado, fortalecendo a vigilância de todas as participantes do mercado. Quando um banco identifica um comportamento suspeito, ele envia o dado para a base, que o cruza com registros de outras instituições.
O uso de inteligência artificial e modelos preditivos tem se tornado essencial. Algoritmos analisam padrões de comportamento, identificam anomalias e antecipam possíveis mudanças nas táticas dos fraudadores. Coelho destaca que o perfil do fraudador é extremamente volátil, mudando de estratégia assim que uma conta deixa de ser eficaz.
Essas ferramentas preditivas ajudam a mapear tendências e a direcionar recursos de monitoramento para áreas de maior risco. Por exemplo, se a IA detecta um aumento súbito de transferências internacionais de contas recém-abertas, o sistema pode gerar um bloqueio preventivo ou solicitar documentação adicional ao cliente.
Outra prática adotada pelos bancos é a verificação de compatibilidade entre a renda declarada e o volume de transações. Quando há discrepância significativa, o cliente pode ser submetido a uma análise de origem dos recursos, conhecida como “originação de fundos”. Essa medida reduz a chance de que contas laranja sejam usadas para lavagem de dinheiro ou financiamento de crimes cibernéticos.
As instituições também investem em campanhas de conscientização, alertando os usuários sobre os riscos de ceder o acesso a suas contas. A anuência do titular – ou seja, a permissão para que terceiros utilizem a conta – é um ponto crítico, pois abre brechas para esquemas de “conta de passagem”.
Em casos de identificação de uso indevido, os titulares podem sofrer bloqueio da conta, perda de crédito e até processos judiciais. Por isso, a educação sobre boas práticas digitais, como a proteção de senhas e a verificação de solicitações suspeitas, é parte integrante das estratégias de mitigação.
O cenário apontado pelo levantamento da Quod indica que a combinação de tecnologia avançada, colaboração entre instituições e educação do público são pilares para conter o crescimento das contas laranja. A expectativa é que, com o aprimoramento dos modelos preditivos e o aumento da troca de informações, o número de indícios possa ser reduzido nos próximos semestres.
Entretanto, especialistas alertam que a batalha contra fraudes financeiras é contínua e requer atualização constante das ferramentas de detecção. À medida que os fraudadores evoluem, os bancos precisam investir em pesquisa e desenvolvimento para manter a eficácia dos sistemas antifraude.








