A Academia Goncourt retirou nesta sexta‑feira (25) o romance “C’était ça ou mourir” da competição, após alegações de plágio e uso intensivo de inteligência artificial. A decisão foi tomada em Paris, onde o prêmio reúne os principais críticos e editores franceses. O autor, Thélyson Orélien, canadense‑haitiano, tem sido alvo de controvérsia que se espalhou da França ao Canadá.
Acusações e decisão da Academia Goncourt
A denúncia surgiu quando uma conta anônima no X acusou Orélien de ter escrito seu livro quase que totalmente com auxílio de IA. Especialistas em linguagem computacional analisaram trechos do romance e identificaram padrões típicos de modelos de geração de texto, como repetições de frases e estruturas sintáticas padronizadas.
Com base nesses indícios, a Academia Goncourt divulgou um comunicado afirmando que “os resultados convergentes de diversas análises realizadas por pesquisadores e jornalistas confiáveis demonstram que ‘C’était ça ou mourir’ é, muito provavelmente, em grande parte produto de inteligência artificial”. A instituição ressaltou que a integridade do concurso depende de obras criadas integralmente por autores humanos.
Além da suspeita de IA, surgiram acusações de plágio de textos publicados há mais de dez anos no Canadá. O autor teria copiado trechos de artigos e ensaios que circulavam em revistas acadêmicas, sem a devida atribuição. Essa camada adicional de controvérsia reforçou a decisão da academia.
- Análises de estilo lexical apontaram uso excessivo de frases de três a quatro palavras, comum em algoritmos de geração.
- Comparações de trechos revelaram semelhanças de até 85% com textos disponíveis online.
- Especialistas em IA confirmaram a presença de “tokens” típicos de modelos treinados em grandes corpora.
- Jornalistas verificaram que partes do romance coincidiam com artigos de revistas canadenses de 2008.
- A própria conta anônima revelou ser parte de um “projeto coletivo” liderado por Samuel Fitoussi.
Dois dias após a primeira denúncia, a academia oficializou a retirada do livro da lista de finalistas. A medida foi recebida com apoio de muitos escritores tradicionais, que temiam que a tecnologia pudesse desvalorizar o esforço criativo humano.
Repercussões no Canadá e na França
No Canadá, onde Orélien se estabeleceu em 2010, a editora Boréal suspendeu imediatamente todas as atividades promocionais relacionadas ao romance. A editora informou que revisará os contratos e avaliará possíveis ações judiciais por violação de direitos autorais.
Enquanto isso, na França, o autor encontrava‑se em Paris para promover a obra, que havia se tornado um fenômeno literário nas primeiras semanas de lançamento. Ele cancelou as entrevistas agendadas e declarou à AFP que está “pronto para se pronunciar quando as coisas se acalmarem”.
Orélien afirmou que sente que a polêmica visa “silenciar a minha voz”, sugerindo que a crítica ao livro seria também uma tentativa de deslegitimar sua trajetória como escritor migrante. O escritor de 38 anos destacou que a acusação de IA foi feita por uma conta que ele reconheceu como pertencente ao ensaísta Samuel Fitoussi, que admitiu ser parte de um “projeto coletivo”.
O caso gerou debates intensos nos círculos literários franceses, com alguns autores defendendo a experimentação tecnológica e outros pedindo regulamentação mais rígida. Eventos literários em Paris e Montreal incluíram mesas‑redondas sobre o tema, reunindo editores, jurados e especialistas em ética de IA.
Impactos da IA na literatura e perspectivas futuras
A controvérsia destaca um dilema crescente: até que ponto a inteligência artificial pode ser considerada uma ferramenta criativa versus um substituto do autor? Muitos leitores ainda não sabem diferenciar um texto escrito por um humano de um gerado por algoritmo, o que levanta questões sobre transparência e responsabilidade editorial.
Especialistas sugerem que prêmios literários podem precisar atualizar seus regulamentos, exigindo declarações de uso de IA nos processos de submissão. Alguns já propõem a criação de categorias específicas para obras assistidas por tecnologia, de modo a reconhecer a inovação sem comprometer a competição tradicional.
Para os autores, a situação serve de alerta. A combinação de IA e plágio pode gerar sanções severas, como a exclusão de concursos, perdas financeiras e danos à reputação. Ao mesmo tempo, a tecnologia oferece possibilidades de pesquisa, geração de esboços e exploração de novas narrativas, desde que utilizada de forma ética.
Em última análise, o caso de Thélyson Orélien pode se tornar um marco histórico, semelhante aos primeiros escândalos de plágio na literatura. Ele demonstra que o mercado editorial está em transição e que a comunidade literária precisará definir novos parâmetros de autoria, originalidade e integridade.








