Antônio Carlos Freixo Junior, empresário mineiro, revelou em delação premiada que tentou reaver US$ 12,3 milhões transferidos ao fundo Havengate nos Estados Unidos, mas não conseguiu. As transferências ocorreram entre janeiro e setembro de 2025, sob orientação de Daniel Vorcaro, então dono do extinto Banco Master. O depoimento foi registrado à Polícia Federal em 1º de outubro de 2026, em Brasília.
Contexto do financiamento do filme “Dark Horse”
O longa-metragem “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex‑presidente Jair Bolsonaro, tornou‑se alvo de investigação após reportagens apontarem que seu financiamento teria sido viabilizado por recursos provenientes de um fundo offshore controlado por Daniel Vorcaro. O caso ganhou repercussão nacional porque o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, teria solicitado os recursos ao banqueiro.
Segundo documentos apreendidos, a operação foi estruturada como uma subscrição de cotas de um fundo de private equity focado em empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos, especificamente nos estados do Texas e Flórida. Essa fachada teria servido para disfarçar a real destinação dos recursos, que seria a produção audiovisual do filme.
- Janeiro de 2025 – Primeiro repasse ao fundo Havengate.
- Abril de 2025 – Segundo repasse, totalizando US$ 3,5 milhões.
- Junho de 2025 – Terceiro repasse, somando US$ 5,8 milhões.
- Setembro de 2025 – Último repasse, totalizando US$ 12,3 milhões.
Na cotação de setembro de 2025, o montante equivale a aproximadamente R$ 62,8 milhões. O empresário afirmou que, na época, acreditava estar realizando um investimento legítimo em um fundo imobiliário, sem saber da conexão com a produção do filme.
O papel de Antônio Carlos Freixo Júnior e a delação premiada
Freixo Junior, proprietário da Entre Investimentos, foi o responsável por efetuar os sete repasses ao fundo Havengate, controlado por Paulo Calixto, advogado do ex‑deputado Eduardo Bolsonaro. Em troca, recebeu comprovantes que enviava a Vorcaro, reforçando a aparência de um investimento regular.
Em seu depoimento, o delator – conhecido como “Mineiro” – declarou que só tomou conhecimento da real finalidade do fundo após a divulgação de matérias pela imprensa. Na ocasião, ele enviou e‑mails formais solicitando o resgate integral dos valores e a apresentação de um balancete demonstrativo, mas não obteve resposta dos gestores.
O acordo de delação premiada foi homologado pelo ministro André Mendonça em setembro de 2026. Conforme o termo, Freixo Junior comprometeu‑se a colaborar com as investigações, fornecendo documentos, e‑mails e registros bancários, em troca de possíveis benefícios caso fosse condenado.
Investigações da Polícia Federal e a solicitação de prorrogação
A Polícia Federal contestou a versão do delator, apontando que uma carta‑acordo da empresa de Paulo Calixto já continha a justificativa de que “time is of the essence to the production of the film”, indicando que o objetivo era, de fato, acelerar a produção cinematográfica. Esse documento sugere que o empresário tinha ciência do destino final dos recursos.
Em 16 de outubro de 2026, a PF solicitou ao ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, a prorrogação de 90 dias da investigação sobre o financiamento do filme. O pedido foi fundamentado na necessidade de concluir perícia contábil, analisar quebras de sigilo bancário e validar os documentos apresentados pelos envolvidos.
Além da prorrogação, a PF requisitou que o delator entregue formalmente os pedidos de resgate integral e o balancete solicitado, a fim de comprovar a inexistência de respostas por parte dos gestores do fundo.
Implicações políticas e próximas etapas
O caso tem implicações diretas nas candidaturas de Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, que negam qualquer irregularidade no financiamento do filme que narra a história de seu pai. Caso as investigações confirmem a destinação ilícita dos recursos, os nomes podem ser alvo de processos judiciais e sanções eleitorais.
Para a Justiça, a extensão da investigação pode resultar em novas prisões, bloqueio de bens e, possivelmente, em processos de lavagem de dinheiro. A delação premiada de Freixo Junior pode servir como ponto de partida para desdobramentos que envolvam outras empresas e contas offshore vinculadas ao grupo.
Enquanto isso, o filme “Dark Horse” permanece em fase de produção, mas enfrenta incertezas financeiras que podem atrasar seu lançamento. O público e os investidores aguardam o desenrolar das decisões judiciais, que poderão definir o futuro do projeto cinematográfico e o destino dos milhões de reais envolvidos.








