Um estudo recente realizado pelo iFood em parceria com o Instituto QualiBest revelou que, apesar de muitas empresas proclamarem valores fortes, a maioria dos profissionais ainda vê esses princípios desaparecerem quando a pressão por resultados aumenta. A pesquisa, divulgada em 2024, entrevistou 1.406 trabalhadores de organizações com mais de 100 colaboradores espalhados por todo o Brasil, trazendo luz a uma contradição que afeta o engajamento, a retenção e a saúde mental nas corporações.
O que os números dizem sobre a prática dos valores
Segundo o levantamento, 89% dos entrevistados acreditam que uma cultura organizacional sólida pode melhorar os resultados empresariais. Contudo, apenas 43% afirmam observar a cultura influenciando decisões de negócio no dia a dia.
Quando as metas se tornam mais apertadas, 58% dos profissionais relatam que a cultura é a primeira a ceder, e 41% dos líderes admitem abrir mão dos valores para atingir resultados imediatos.
Esses dados apontam para um cenário em que o discurso de propósito e bem‑estar muitas vezes colide com a necessidade de produtividade, gerando um efeito de “adoecimento” organizacional que pode se refletir em burnout, rotatividade e queda de confiança.
Impactos concretos na decisão de carreira
A pesquisa demonstra que a cultura organizacional deixou de ser um detalhe secundário nas escolhas profissionais. Hoje, 79% dos respondentes dizem que a forma como a empresa coloca seus valores em prática influencia ou influenciaria sua decisão de aceitar ou permanecer em um cargo.
Na prática, 73% já recusaram uma proposta, pediram demissão ou decidiram ficar em um emprego especificamente por causa da cultura percebida.
Esses números explicam por que especialistas em gestão de pessoas associam a incoerência entre discurso e prática a problemas de engajamento, retenção de talentos e alta rotatividade.
- Redução de rotatividade: empresas que alinham discurso e prática registram menor turnover.
- Melhoria do clima: 88% dos entrevistados consideram que uma cultura efetivamente praticada eleva a qualidade do ambiente de trabalho.
- Aumento da produtividade: equipes que sentem que os valores são vividos tendem a apresentar melhor performance.
Diferenças de percepção entre lideranças e operacionais
Um dos achados mais marcantes foi a disparidade entre a visão dos executivos e a dos demais colaboradores. Enquanto 60% dos diretores e altos executivos afirmam que a cultura é praticada sempre, apenas 23% dos analistas e especialistas compartilham desse sentimento.
Além disso, 69% dos líderes dizem conhecer a cultura muito bem, enquanto apenas 36% dos analistas se sentem igualmente familiarizados.
Essas diferenças sugerem que a comunicação dos valores costuma ficar restrita ao nível estratégico, sem chegar efetivamente à linha de frente onde as decisões operacionais são tomadas.
Para 60% dos entrevistados, a maior distância entre discurso e prática ocorre exatamente na alta e média gestão, indicando que o desafio está na capacidade desses gestores de traduzir princípios em ações cotidianas.
Inteligência artificial e a nova pressão por resultados
O estudo também identificou uma correlação crescente entre a adoção de tecnologias de inteligência artificial (IA) e a tensão entre valores e produtividade. À medida que empresas ampliam investimentos em IA, a cobrança por eficiência se intensifica, colocando ainda mais à prova a consistência dos princípios culturais.
Um levantamento do Upwork Research Institute, citado na pesquisa, mostrou que organizações que inserem IA sem reforçar sua cultura tendem a experimentar maior desconexão entre discurso e prática, aumentando o risco de desgaste mental entre os colaboradores.
Portanto, a integração de IA deve ser acompanhada de estratégias claras para preservar e vivenciar os valores corporativos, evitando que a tecnologia se torne um pretexto para negligenciar o bem‑estar dos funcionários.
Como fechar o gap entre discurso e prática
Para transformar a cultura de palavra em ação, as empresas precisam adotar medidas concretas. Abaixo, listamos cinco passos fundamentais que podem ajudar a alinhar valores e comportamento:
- Definir métricas de cultura: criar indicadores que avaliem o grau de aderência aos valores em processos de decisão.
- Capacitar a média gestão: oferecer treinamentos que reforcem a importância de viver os princípios no cotidiano operacional.
- Integrar valores ao sistema de recompensas: vincular bonificações e reconhecimentos ao comportamento alinhado à cultura.
- Comunicação bidirecional: abrir canais de feedback onde colaboradores possam relatar desvios e sugerir melhorias.
- Auditar regularmente: conduzir avaliações periódicas para medir a consistência entre discurso e prática, ajustando rotas quando necessário.
Ao implementar essas ações, as organizações aumentam a probabilidade de que a cultura seja percebida como um elemento vivo, capaz de orientar decisões mesmo nos momentos de maior pressão.
Em resumo, a pesquisa do iFood e do Instituto QualiBest traz à tona a necessidade urgente de as empresas revisarem não apenas o que proclamam, mas como efetivamente aplicam seus valores. Só assim será possível criar ambientes de trabalho sustentáveis, reduzir o turnover e garantir que a inteligência artificial sirva como aliada, e não como inimiga, da cultura organizacional.








