Na manhã desta quinta-feira, 5 de maio de 2026, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi declarado incomunicável durante uma sessão extraordinária do Congresso. O episódio ocorreu em Assunção, capital do país, enquanto parlamentares debatiam a aceitação de sua renúncia ou a abertura de um processo de impeachment.
Sessão extraordinária e o desaparecimento de Peña
O porta‑voz da Presidência, Guillermo Grance, afirmou publicamente que não tem informação alguma sobre o paradeiro do mandatário. A declaração foi feita tanto no plenário quanto em um grupo de WhatsApp oficial da Casa Civil, aumentando a sensação de incerteza institucional.
Deputados e senadores da oposição reuniram‑se para decidir entre duas alternativas: aceitar a renúncia de Peña ou avançar com um impeachment por supostos crimes financeiros. A votação estava prevista para ocorrer ainda nesta sessão, que tem sido marcada por intensas trocas de acusações.
Enquanto isso, a imprensa nacional e internacional acompanhava o desenrolar dos fatos, destacando a gravidade de um presidente que se torna incomunicável em meio a uma crise bancária que já afetou milhões de paraguaios.
Acusações e paralelos com Flávio Bolsonaro
A oposição acusou Peña de envolvimento direto no colapso do Ueno Bank, a maior instituição financeira digital do país, cuja falência congelou os depósitos de cerca de três milhões de pessoas. Segundo a acusação, o presidente teria usado sua influência para favorecer o banco, inclusive concentrando recursos previdenciários na instituição.
Entre as imputações apresentadas pelos senadores opositores estão:
- Enriquecimento ilícito;
- Tráfico de influência;
- Gestão de recursos públicos em benefício próprio;
- Conflito de interesses ao manter ações de empresas controladoras do Ueno Bank até março de 2025.
Essas acusações lembram o caso do senador brasileiro Flávio Bolsonaro, que, após perder as eleições presidenciais de 2022, deixou o país em meio a investigações de corrupção. A comparação foi feita por Esperanza Martínez, do partido Frente Guasú, que alertou que “Peña pode tentar fugir da Justiça da mesma forma que Bolsonaro”.
Martínez declarou que, caso a renúncia fosse aceita, Peña se tornaria senador vitalício, um cargo que garante foro privilegiado e permite que ele viaje ao exterior sem restrições, conforme o Artigo 189 da Constituição paraguaia.
Cenário político e consequências institucionais
Se o Congresso optar pelo impeachment e condenar Peña, ele perderá o foro privilegiado e poderá ser processado normalmente pelos crimes ligados ao Ueno Bank. A Procuradoria‑Geral do Estado já anunciou a abertura de uma investigação penal específica sobre o caso.
Por outro lado, a aceitação da renúncia abriria caminho para que o ex‑presidente assuma a senadoria vitalícia, mantendo o acesso a benefícios e imunidades que dificultam sua responsabilização judicial.
O debate no plenário também trouxe à tona a fragilidade do sistema financeiro paraguaio. A falência do Ueno Bank provocou protestos massivos em Assunção, com milhares de cidadãos exigindo respostas e a demissão do presidente do Banco Central.
Analistas políticos apontam que a crise pode gerar um efeito dominó, afetando a confiança dos investidores estrangeiros e comprometendo projetos de infraestrutura que dependem de financiamento externo.
Além das questões econômicas, a situação tem implicações para a estabilidade democrática do Paraguai. A Constituição prevê que ex‑presidentes eleitos democraticamente, salvo se condenados em julgamento político, assumam a senadoria vitalícia sem direito a voto. Essa cláusula tem sido criticada por possibilitar a perpetuação de figuras políticas no poder, ainda que sem mandato executivo.
Observadores internacionais recomendam que o Paraguai adote medidas de transparência mais rigorosas e fortaleça os mecanismos de controle sobre o sistema bancário, a fim de evitar novas crises semelhantes.
Enquanto o Congresso continua a deliberar, a população paraguaia permanece apreensiva. Muitos temem que a falta de respostas rápidas possa aprofundar a crise social, que já se manifesta em filas de bancos, protestos nas ruas e um clima de desconfiança generalizada.
O futuro de Santiago Peña, assim como o destino da economia paraguaia, ainda depende das decisões que serão tomadas nas próximas horas no plenário. O mundo observa atentamente, aguardando sinais de como a democracia do país lidará com um dos maiores escândalos financeiros de sua história recente.








