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Brasil pode adotar estratégia internacional para negociar tarifas com Trump

O professor de relações internacionais Cezar Roedel analisou, no programa VEJA em Foco, a possibilidade de o Brasil adotar estratégias usadas por outros países para negociar a redução de tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, após as eleições de meio de mandato realizadas em novembro de 2022. Ele destacou que o momento político americano cria uma janela de oportunidade para o governo brasileiro. A entrevista foi transmitida em 15 de dezembro de 2022, em São Paulo.

Estratégia de contrapartidas: o que funcionou em outros países

Roedel apontou que na última década várias nações conseguiram reverter barreiras comerciais ao colocar ativos estratégicos na mesa de negociação. Países como o Canadá, a Coreia do Sul e a Austrália ofereceram concessões específicas em troca de alívios tarifários. Segundo o especialista, a chave está em transformar a negociação em um intercâmbio de valor concreto, e não apenas em um apelo retórico.

Ele explicou que esses governos criaram pacotes de contrapartidas que incluíam:

  • Investimentos em infraestrutura nos Estados Unidos;
  • Compartilhamento de tecnologias avançadas em setores críticos;
  • Compromissos de compra de produtos agrícolas americanos.

Essas medidas foram acompanhadas de garantias de longo prazo, o que aumentou a confiança de Washington nas propostas. O professor enfatizou que a abordagem pragmática reduziu a percepção de risco por parte dos negociadores americanos.

Em contraste, o Brasil ainda não desenvolveu um conjunto estruturado de ofertas que vá além das tradicionais discussões sobre redução de tarifas. Roedel alertou que a ausência de um plano de contrapartidas pode ser interpretada como falta de comprometimento com a parceria comercial.

Recursos estratégicos brasileiros que podem ser negociados

Para construir um portfólio de ofertas, o professor sugeriu que o governo identifique ativos nos quais o Brasil tem vantagem comparativa. Entre os mais citados estão as terras raras, minerais críticos e a produção de biocombustíveis.

Ele enumerou três categorias principais que podem ser usadas como moeda de troca:

  1. Terras raras e minerais críticos: o país possui reservas significativas de nióbio, lítio e minerais utilizados em tecnologia de ponta.
  2. Produtos agroindustriais de alto valor: soja, carne bovina e café são sempre demandados pelos EUA, mas podem ser vinculados a acordos de investimento.
  3. Energia renovável e biocombustíveis: o Brasil lidera na produção de etanol e tem potencial para exportar tecnologia de energia eólica.

Ao combinar essas áreas, o Brasil poderia propor, por exemplo, a criação de joint ventures entre empresas brasileiras de mineração e companhias americanas de tecnologia. Outra possibilidade seria oferecer linhas de crédito para projetos de energia limpa nos EUA, alinhando interesses ambientais e comerciais.

Roedel ressaltou que a negociação deve ser baseada em dados claros e em projeções de mercado, para que Washington veja o benefício imediato das contrapartidas. Ele recomendou a elaboração de estudos de viabilidade que demonstrem o impacto econômico positivo das propostas.

Desafios diplomáticos e o cenário político nos EUA

Apesar das oportunidades comerciais, o professor apontou que ainda existem obstáculos diplomáticos que dificultam o avanço das tratativas. A nomeação de um embaixador americano para o Brasil ainda não foi concluída, e a falta do agrément impede o reconhecimento formal do representante diplomático.

Esse impasse, segundo Roedel, sinaliza uma postura cautelosa da administração Trump, que pode usar a questão diplomática como alavanca nas negociações tarifárias. Ele também destacou que, historicamente, presidentes americanos intensificam suas políticas externas após as eleições de meio de mandato, buscando consolidar apoio interno.

Com a vitória dos democratas no Congresso em 2022, o governo Lula vê uma chance de reduzir as tensões, mas reconhece que Trump ainda detém considerável margem de manobra política. O especialista advertiu que uma mudança nas tarifas dependerá mais da disposição do Brasil em apresentar contrapartidas concretas do que do resultado eleitoral americano.

Além disso, Roedel alertou que a Casa Branca pode evitar novas medidas punitivas contra produtos brasileiros mesmo sem reduzir as tarifas imediatamente, como forma de manter um clima de negociação. Essa estratégia de “contenção” pode ser explorada pelo Brasil para ganhar tempo e elaborar propostas mais robustas.

Em síntese, o professor recomenda que o governo brasileiro adote uma postura proativa, definindo claramente quais ativos estratégicos serão oferecidos, estruturando pacotes de investimento e superando os entraves diplomáticos. Só assim o Brasil terá condições de transformar a janela política criada pelas eleições de meio de mandato em ganhos concretos para a balança comercial.

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