Em 2026, diversos países das Américas vivenciaram intensas disputas eleitorais, com autoridades e candidatos questionando a integridade dos sistemas de votação. Os episódios ocorreram desde o início das campanhas até a madrugada da apuração dos resultados, espalhando dúvidas nos eleitores.
Contexto histórico e legado autoritário
O descrédito das urnas na América Latina tem raízes profundas no passado recente de regimes militares e ditatoriais. Países como Peru, Colômbia e Venezuela ainda carregam memórias de fraudes impostas por governos autoritários.
Essas lembranças alimentam um clima de suspeição que se manifesta em declarações públicas, protestos e até processos judiciais contra os resultados eleitorais. A falta de um consenso sobre a transparência dos processos eleva o risco de crises institucionais.
Além do passado, a cultura política ainda não consolidou práticas de respeito ao voto. Muitos eleitores ainda acreditam que o voto pode ser manipulado por elites ou por potências estrangeiras.
Casos emblemáticos de 2026
No Peru, o candidato de esquerda Sanchéz, derrotado nas urnas, acusou fraudes sem apresentar provas concretas, ameaçando não reconhecer a vitória de Keijo Fujimori. A disputa gerou protestos nas principais cidades do país.
Na Colômbia, Cepeda, outro líder esquerdista, seguiu a mesma estratégia, contestando a vitória de Abelardo de la Espriella. O Conselho Nacional Eleitoral recebeu milhares de queixas, mas nenhuma evidência foi confirmada.
Já na Venezuela, a situação é ainda mais complexa. O governo interino liderado por Delcy Rodríguez permanece no poder após a captura de Nicolás Maduro, mas não há perspectiva de eleições livres nos próximos anos.
Esses três exemplos ilustram diferentes formas de ataque ao sistema eleitoral:
- questionamento da segurança do voto;
- pressão sobre instituições eleitorais;
- impedimento de oposição de participar.
Os Estados Unidos e a erosão democrática
Embora os EUA possuam a tradição mais longa de eleições regulares, o país também enfrenta sinais de deterioração institucional. Desde a invasão do Capitólio em 2021, especialistas apontam um declínio na confiança das urnas.
Um estudo do Instituto Variedades da Democracia (V‑Dem) mostrou que a pontuação dos EUA caiu 24% em um ano, levando o país do 20º ao 51º lugar no ranking mundial de democracias liberais.
Fatores como o uso excessivo de decretos presidenciais, disputas orçamentárias com o Congresso e o desrespeito a decisões judiciais contribuíram para esse cenário.
Mesmo com duas séculos e meio de história democrática, as instituições americanas não estão imunes a pressões internas e externas que ameaçam a legitimidade dos processos eleitorais.
Motivações por trás da ofensiva contra as urnas
Segundo a professora Lorena Barberia, da USP, a falta de confiança nas urnas decorre de três principais fatores: legado autoritário, cultura política ainda em formação e vulnerabilidades técnicas nos sistemas de votação.
Primeiro, o passado autoritário cria um medo persistente de manipulação estatal. Segundo, a cultura política ainda não internalizou o respeito ao resultado das eleições, permitindo que candidatos rejeitem derrotas como fraude. Terceiro, falhas tecnológicas – como vulnerabilidades em máquinas eletrônicas – são exploradas por atores políticos para semear dúvidas.
Além desses aspectos, a polarização crescente nas redes sociais intensifica a disseminação de informações falsas, alimentando narrativas de fraude sem fundamento.
Para enfrentar esse cenário, especialistas recomendam:
- Fortalecer a independência das comissões eleitorais;
- Implementar auditorias técnicas regulares nas máquinas de voto;
- Promover campanhas de educação cívica que enfatizem a importância do voto livre.
Essas medidas visam restaurar a credibilidade dos processos eleitorais e reduzir a incidência de ataques infundados.
Perspectivas para o futuro das eleições nas Américas
O caminho para a consolidação democrática passa pela construção de instituições resilientes e pela criação de uma cultura de aceitação dos resultados eleitorais. Países que investirem em transparência e em mecanismos de controle terão maior capacidade de resistir a crises.
Na prática, isso implica melhorar a legislação que regula as campanhas, garantir acesso igualitário aos recursos de mídia e reforçar a participação da sociedade civil na observação das eleições.
Em última análise, a confiança nas urnas dependerá da capacidade dos governos e da sociedade de transformar a memória autoritária em aprendizado institucional, criando um ambiente onde o voto seja verdadeiramente o último bastião da soberania popular.








