A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concedeu recentemente aprovação ao orforglipron, um comprimido oral que trata obesidade e diabetes tipo 2, sem necessidade de jejum. A decisão foi anunciada em março de 2024, durante a reunião do comitê de medicamentos de uso humano da EMA, e abrange tanto a Europa quanto outros mercados regulatórios.
Mecanismo de ação e diferenciais da molécula
O orforglipron pertence à classe dos agonistas do receptor GLP‑1, semelhantes ao Ozempic, mas difere por ser uma pequena molécula química em vez de um peptídeo. Essa característica permite que o fármaco seja absorvido intacto pelo trato gastrointestinal, eliminando a necessidade de injeção ou de jejum rigoroso antes da ingestão.
Ao ativar o receptor GLP‑1, o comprimido aumenta a sensação de saciedade e estimula a liberação de insulina pelo pâncreas, contribuindo para a redução do apetite e o controle da glicemia. Por ser resistente à digestão, pode ser tomado a qualquer hora do dia, com ou sem alimentos, ao contrário da semaglutida oral, que exige estômago vazio e um intervalo de meia hora antes da refeição.
Evidências clínicas de eficácia
Os principais ensaios que sustentam a aprovação foram os estudos ATTAIN‑1 e ATTAIN‑2, que avaliaram a perda de peso em adultos com obesidade ou sobrepeso, com e sem diabetes. No ATTAIN‑1, 3.127 participantes foram acompanhados por 72 semanas; na dose mais alta, a perda média foi de 12,4% do peso corporal, equivalendo a cerca de 12 kg, enquanto o grupo placebo perdeu apenas 0,9%.
Mais da metade dos pacientes na dose máxima reduziu o peso em pelo menos 10%, e um terço chegou a perder 15% ou mais. O ATTAIN‑2, focado em indivíduos com diabetes tipo 2, mostrou perda média de 10,5% (aproximadamente 10 kg) na dose mais alta, comparado a 2,2% no placebo, refletindo a tendência de emagrecimento mais modesto em pacientes diabéticos.
Além da perda de peso, o programa de estudos ACHIEVE investigou o impacto glicêmico. No ACHIEVE‑1, a hemoglobina glicada (HbA1c) caiu entre 1,3 e 1,6 ponto percentual em 40 semanas, partindo de uma média de 8%, enquanto o placebo permaneceu praticamente estável. Até 75% dos participantes atingiram a meta de HbA1c abaixo de 7%.
Em comparação direta com a semaglutida oral, o ACHIEVE‑3 demonstrou que, na dose mais alta, o orforglipron reduziu a HbA1c em 2,2 pontos, contra 1,4 pontos do comparador, e 77% dos pacientes alcançaram valores menores que 6,5%, frente a 51% no grupo de semaglutida.
Segurança, efeitos colaterais e perspectivas de uso
A segurança cardiovascular foi avaliada no extenso estudo ACHIEVE‑4, que incluiu 2.749 pacientes com diabetes tipo 2, sobrepeso e risco cardiovascular elevado, comparados por até dois anos com insulina glargina. O risco de eventos cardiovasculares maiores (morte, infarto, AVC ou internação por angina) foi 16% menor no grupo tratado com o comprimido, atendendo ao requisito regulatório de não aumento de risco.
Observou‑se ainda uma tendência de redução de mortalidade por todas as causas, embora essa análise não fosse o objetivo principal e o estudo fosse aberto, permitindo que pacientes e médicos soubessem o tratamento administrado.
Os efeitos adversos relatados são típicos da classe GLP‑1: náuseas, vômitos, diarreia, prisão de ventre e má digestão, geralmente leves a moderados e concentrados durante a fase de titulação da dose. No ATTAIN‑1, aproximadamente um terço dos voluntários experimentou náuseas.
A taxa de abandono por efeitos colaterais variou entre 5% e 10% no grupo do orforglipron, comparado a 2,6% no placebo. Quando comparado com a semaglutida oral, a desistência quase dobrou, indicando que, apesar da conveniência oral, a tolerabilidade ainda requer atenção clínica.
Em termos de adesão, a possibilidade de tomar o comprimido a qualquer hora e sem restrições alimentares pode melhorar a persistência ao tratamento, especialmente em pacientes que têm dificuldade com injeções ou rotinas de jejum.
Os resultados combinados de eficácia em perda de peso, controle glicêmico e segurança cardiovascular posicionam o orforglipron como uma opção inovadora no arsenal terapêutico contra obesidade e diabetes. Seu perfil oral pode ampliar o acesso a terapias GLP‑1 em populações que antes evitavam injeções.
Com a aprovação da EMA, espera‑se que o medicamento esteja disponível nos países europeus nos próximos meses, seguindo os processos de comercialização e reembolso. Nos Estados Unidos, o produto já está comercializado sob o nome comercial Foundayo, tendo sido aprovado em abril de 2024 em tempo recorde.
Especialistas ressaltam que, embora promissor, o comprimido não substitui mudanças de estilo de vida, como dieta equilibrada e prática regular de exercícios, que continuam sendo pilares essenciais no manejo da obesidade e do diabetes.
Em resumo, a aprovação do orforglipron representa um avanço significativo ao oferecer uma alternativa oral eficaz, segura e conveniente para milhões de pacientes que lutam contra o excesso de peso e a hiperglicemia, potencialmente transformando o panorama terapêutico nos próximos anos.








