No contexto do Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, pesquisadores do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da USP lançaram um protocolo para orientar a comunicação de resultados suspeitos de exames de mama. O protocolo, denominado Radnews, foi apresentado em artigo científico publicado na revista RadioGraphics e já está sendo adotado em clínicas brasileiras. A iniciativa busca melhorar o diálogo entre radiologistas e pacientes, reduzindo a ansiedade e facilitando o encaminhamento para exames complementares.
Por que a comunicação de resultados suspeitos é um desafio
Ao receber um laudo que indica a presença de uma lesão suspeita, a paciente costuma sentir medo, incerteza e urgência por respostas claras. Essa reação é natural, pois o diagnóstico de câncer de mama ainda carrega forte carga emocional e social.
Para o profissional de saúde, especialmente o radiologista, o desafio está em traduzir termos técnicos em linguagem acessível, sem perder a precisão necessária. A falta de treinamento específico para essa tarefa pode gerar mensagens confusas ou excessivamente alarmantes.
Além disso, a relação entre radiologista e paciente costuma ser breve: o especialista interpreta a imagem e entrega o relatório ao médico solicitante, que então conduz a próxima fase do atendimento. Essa curta interação dificulta a construção de confiança, essencial para que a paciente absorva a informação de forma tranquila.
Estudos mostram que a forma como a notícia é apresentada influencia diretamente a percepção de risco e a adesão a exames complementares. Uma comunicação empática e estruturada pode diminuir a taxa de abandono de seguimento diagnóstico.
O protocolo Radnews: estrutura e diretrizes
Desenvolvido por um grupo liderado pela radiologista Natália Ceccaroni Orthmann, o Radnews reúne recomendações práticas para que o radiologista conduza a entrega de notícias difíceis. O protocolo foi pensado para ser aplicável tanto no Brasil quanto em outros países, considerando diferenças de infraestrutura e acesso à saúde.
Ele se baseia em quatro pilares fundamentais:
- Clareza: usar termos simples, explicando o que significa “achado suspeito” e quais são as possibilidades.
- Empatia: reconhecer a ansiedade da paciente e oferecer apoio emocional imediato.
- Orientação: indicar os próximos passos, como exames complementares ou consultas com oncologistas.
- Documentação: garantir que o histórico de exames seja preservado e facilmente acessível.
O Radnews sugere ainda um roteiro de comunicação em cinco etapas:
- Apresentar o contexto do exame e o motivo da realização.
- Descrever o achado de forma neutra, evitando termos como “câncer” antes da confirmação.
- Explicar a necessidade de investigação adicional, como ultrassom, ressonância ou biópsia.
- Responder perguntas da paciente, reforçando que a maioria dos achados suspeitos não são malignos.
- Encerrar com um plano de acompanhamento e disponibilizar contato para dúvidas.
Essas etapas foram testadas em simulações clínicas e mostraram aumento da compreensão por parte das pacientes, além de maior satisfação com o atendimento.
Impactos práticos e recomendações para profissionais
Desde a sua implementação, o Radnews tem sido adotado em diversos serviços de radiologia hospitalar e ambulatório. Os profissionais relataram que o protocolo facilita a preparação de um discurso estruturado, reduzindo o tempo de fala improvisada.
Uma das recomendações mais enfatizadas é a preservação cuidadosa dos laudos e imagens. Cada exame funciona como um documento histórico que pode revelar padrões de crescimento ou regressão de lesões ao longo dos anos.
Além disso, o protocolo destaca a importância da colaboração entre radiologistas e médicos solicitantes. Enquanto o radiologista entrega o laudo, o clínico deve assumir a condução do acompanhamento, garantindo que a paciente receba informações complementares e suporte psicológico quando necessário.
Para instituições que desejam adotar o Radnews, os passos sugeridos são:
- Realizar treinamentos internos com dramatizações de situações reais.
- Disponibilizar materiais de apoio, como fichas de orientação e scripts de comunicação.
- Incorporar o protocolo nos sistemas de prontuário eletrônico, permitindo que o radiologista siga o roteiro durante a geração do laudo.
- Avaliar periodicamente a eficácia por meio de pesquisas de satisfação com pacientes.
Outra prática recomendada é a integração de psicólogos ou assistentes sociais nas equipes de diagnóstico. Esses profissionais podem oferecer suporte imediato quando a notícia gera forte impacto emocional.
O Radnews também incentiva a utilização de recursos visuais, como diagramas da mama que ajudam a paciente a visualizar a localização da lesão. Esse recurso pode tornar a explicação mais concreta e menos abstrata.
Em termos de resultados, hospitais que implementaram o protocolo observaram redução de até 30% nas solicitações de exames repetidos por falta de compreensão do laudo. A taxa de comparecimento a consultas de seguimento também aumentou, indicando maior confiança no processo diagnóstico.
Por fim, a especialista Natália ressalta que, independentemente do resultado, a comunicação deve ser sempre pautada pela empatia e pela transparência. O diagnóstico pode iniciar com a imagem, mas seu desfecho depende de um acompanhamento humano e bem estruturado.








