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Cloroquina: a droga mais testada no mundo perde relevância científica

A cloroquina, que chegou a ser a substância mais mencionada na CPI da pandemia, foi a droga mais testada mundialmente contra a Covid-19, mas a comunidade científica concluiu que ela não traz benefícios ao tratamento e pode agravar o quadro dos pacientes. Os estudos começaram a ser publicados em janeiro de 2020 e, desde então, mais de 2.500 artigos revisados por pares analisaram seu uso. O cenário mudou radicalmente ao longo de 2023, quando novas pesquisas praticamente cessaram.

Um volume recorde de pesquisas sem resultados positivos

Desde o início da pandemia, pesquisadores de 55 países registraram 268 ensaios clínicos envolvendo cloroquina ou hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19. O Brasil figurou entre os dez países com maior número de publicações e ocupou a quarta posição em testes em humanos, atrás apenas dos EUA, França e Egito. Apesar da quantidade, a maioria dos estudos apontou falta de eficácia e risco de efeitos adversos.

O pico de novos registros aconteceu em abril de 2020, quando 110 estudos foram iniciados simultaneamente, impulsionados por declarações de líderes políticos que defendiam a droga como solução milagrosa. Essa onda de interesse foi seguida por um rápido declínio: até o final de 2023, apenas nove novos ensaios foram adicionados, todos em países como Egito, Índia, México e Brasil.

O papel da política e da CPI da pandemia

A cloroquina tornou-se um símbolo político no Brasil, especialmente após ser defendida pelo presidente Jair Bolsonaro como tratamento precoce. Essa defesa alimentou a CPI da pandemia, que chegou a ser chamada de “CPI da cloroquina”. Nas duas audiências com o ex‑ministro da Saúde Eduardo Pazuello, a droga foi citada 140 vezes, demonstrando a carga simbólica que ainda carregava.

Entretanto, a recomendação oficial do Ministério da Saúde para uso da cloroquina – e de seu derivado hidroxicloroquina, combinados com azitromicina – não tinha respaldo em evidências científicas robustas. A nota informativa que autorizava o tratamento foi publicada em maio de 2020, quando ainda não havia dados conclusivos, e foi retirada em maio de 2021, pouco antes da primeira audiência da CPI com Pazuello.

O consenso científico e a queda da relevância

O consenso entre especialistas, como a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), é claro: ciência não se decide por votação, mas por experimentação rigorosa. Mais de 2.500 artigos publicados demonstram que a cloroquina não reduz a mortalidade, nem impede a progressão da doença, e ainda pode causar arritmias cardíacas.

Nos Estados Unidos, que lideravam o número de pesquisas, 58 ensaios foram concluídos sem resultados positivos. Em 2021, o país abandonou oficialmente os estudos com a droga, reconhecendo que o esforço científico não justificava a continuidade dos testes.

Impactos futuros e lições aprendidas

O caso da cloroquina ilustra como decisões políticas podem acelerar ou distorcer a agenda de pesquisa, gerando um volume de estudos que, embora numeroso, carece de relevância clínica. A experiência reforça a importância de bases científicas sólidas antes de implementar políticas de saúde em escala nacional.

Além disso, a situação evidencia a necessidade de comunicação clara entre autoridades sanitárias, pesquisadores e a população, para evitar a disseminação de informações enganosas que podem colocar vidas em risco.

Em resumo, a cloroquina continua a ser a droga mais testada contra a Covid-19, mas a ciência a relegou ao status de tratamento ineficaz e potencialmente perigoso. O legado desse episódio serve como alerta para futuras crises sanitárias, destacando que a velocidade da resposta deve ser acompanhada pela qualidade da evidência.

  • Mais de 2.500 artigos científicos publicados sobre cloroquina e Covid-19
  • 268 ensaios clínicos registrados em 55 países
  • Brasil: 4.º país com mais testes em humanos
  • Queda de novos estudos para apenas 9 em 2023
  • Consenso científico: falta de eficácia e risco de efeitos adversos

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