Nos últimos dois anos, a popularização das injeções de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, tem transformado a forma como brasileiros buscam emagrecimento e saúde. Esse fenômeno, observado principalmente em 2023 e 2024, tem repercutido em todo o território nacional, desde grandes centros urbanos até cidades do interior.
Repercussão nas academias e no consumo de suplementos
O crescimento das prescrições de GLP-1 coincidiu com um aumento expressivo no número de matrículas em academias. Dados da plataforma Wellhub apontam que 90% dos estabelecimentos de fitness no país registraram expansão de alunos nos últimos doze meses, superando a média global de 86%.
Esse movimento tem sido alimentado por uma conscientização maior sobre a importância da prática regular de exercícios, mas também por uma demanda direta de quem utiliza as canetas para evitar a perda de massa magra.
Paralelamente, o setor de suplementos alimentares experimentou um salto de vendas sem precedentes. Segundo a empresa Scanntech, a categoria registrou crescimento de 440% no último ano, liderada pelos seguintes produtos:
- Whey protein – aumento de 38% nas vendas;
- Creatina – crescimento de 32%;
- Iogurtes proteicos – alta de 21%;
- Shakes pré e pós‑treino – incremento de 16%;
- Leites saborizados com proteína – elevação de 14%.
Esses números revelam que a “febre da proteína” está caminhando lado a lado com a adoção das canetas de GLP-1, criando um mercado integrado entre farmacêuticos, nutricionistas e profissionais de educação física.
Desafios da perda de massa muscular
Embora a redução de peso seja o objetivo principal das injeções, a ciência alerta que parte desse ganho pode vir da diminuição da massa muscular. O endocrinologista Fabio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, explica que, em média, 75% da perda de peso corresponde à gordura e até 25% à massa magra.
Quanto maior a perda de peso, maior a tendência de perda muscular. Por isso, a recomendação padrão inclui a prática regular de atividade física e ajustes nutricionais adequados.
A nutricionista Myrian Najas, da Unifesp, destaca que, embora a ingestão de proteína seja suficiente na dieta brasileira, a combinação com exercícios é indispensável para que esses nutrientes se traduzam em ganho de massa.
“Sem estímulo mecânico, a proteína consumida não se converte em músculo”, afirma Najas, reforçando a importância de um plano de treino estruturado.
Orientações de especialistas para preservar a função muscular
O educador físico Guilherme Peixoto, da USP, enfatiza que o músculo necessita de estímulo mecânico para manter sua função. “Não basta caminhar ou pedalar; é preciso intercalar exercícios aeróbicos com treinos de força e resistência”, explica.
Ele destaca que a avaliação da função muscular, como o teste de preensão manual, tornou‑se tão relevante quanto a medição da massa em si.
Segundo Peixoto, a ênfase atual está na qualidade da contração muscular, e não apenas no volume. Essa mudança de paradigma reflete a necessidade de combater a sarcopenia, a perda progressiva de massa e força que acompanha o envelhecimento.
A sarcopenia pode ser mitigada com um plano que inclua:
- Treinos de resistência três a quatro vezes por semana;
- Ingestão de 1,2 a 1,5 g de proteína por kg de peso corporal;
- Uso controlado de suplementos quando a dieta não suprir as necessidades;
- Acompanhamento médico para ajustar a dose das canetas de GLP‑1.
Essas diretrizes ajudam a preservar a capacidade funcional dos músculos, reduzindo riscos de quedas e melhorando a qualidade de vida.
Além disso, o mercado tem respondido com inovações: academias oferecem programas de “musculação + GLP‑1” e laboratórios lançam suplementos específicos para quem utiliza as canetas, combinando aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) e beta‑hidroxibutirato (BHB).
Entretanto, especialistas alertam contra soluções milagrosas. “Produtos que prometem ganho de massa sem esforço são enganosos”, reforça Peixoto.
O cenário atual, portanto, demanda um enfoque integrado entre profissionais de saúde, treinadores e a indústria de alimentos. O objetivo comum é garantir que a perda de peso não comprometa a saúde muscular a longo prazo.
Em síntese, a popularização das injeções de GLP‑1 tem criado um ciclo virtuoso: mais pessoas buscam emagrecimento, o que eleva a demanda por academias e suplementos, que, por sua vez, oferecem as ferramentas necessárias para proteger a massa magra.
O futuro desse mercado dependerá da capacidade de alinhar a eficácia das canetas com estratégias de treinamento e nutrição que priorizem a função muscular, garantindo resultados sustentáveis e saudáveis para a população brasileira.








