Um estudo apresentado na reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), realizada em Milão, revelou que a semaglutida reduziu a gordura hepática a níveis normais em 90% dos pacientes tratados. A pesquisa analisou adultos com obesidade submetidos a diferentes dosagens da droga ao longo de 72 semanas. Os resultados sugerem um avanço significativo no manejo da doença hepática gordurosa não alcoólica.
Contexto da doença hepática gordurosa
A esteatose hepática, também conhecida como doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), tem se tornado um importante marcador de risco à saúde pública. Ela costuma ser silenciosa, mas pode evoluir para esteato‑hepatite, fibrose, cirrose e até carcinoma hepatocelular.
Estudos epidemiológicos indicam que entre 1990 e 2019 o número de casos aumentou cerca de 50% no mundo, com a América Latina apresentando prevalência de até 44% da população adulta. Esse crescimento acompanha a expansão da obesidade, que já afeta mais de 650 milhões de pessoas globalmente.
Embora a maioria dos pacientes não apresente sintomas claros, a presença de gordura no fígado está associada a maior risco de eventos cardiovasculares, insuficiência renal e complicações metabólicas. Por isso, a detecção precoce e a intervenção são consideradas cruciais.
Detalhes do estudo e principais resultados
O ensaio clínico incluiu 1.919 adultos com obesidade, recrutados em dois protocolos diferentes conduzidos pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Os participantes foram divididos em três grupos: 1.312 pacientes receberam semaglutida 7,2 mg, 304 pacientes receberam semaglutida 2,4 mg e 303 pacientes receberam placebo.
Para identificar os indivíduos com maior risco de desenvolvimento de esteato‑hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), os pesquisadores aplicaram critérios de risco e selecionaram 55 voluntários que ainda não estavam em estágio avançado da doença.
A avaliação da gordura hepática foi feita por ressonância magnética, considerada o padrão‑ouro para quantificação de esteatose. As medições foram realizadas no início do estudo e ao final de 72 semanas de tratamento.
Os dados mostraram uma queda média no índice de gordura hepática de 8,8% para 3,1% ao término do período de intervenção. Entre os pacientes que apresentavam índice acima de 5% no início, 88,5% alcançaram valores inferiores a 5%, considerado normal, ao final do estudo.
Esses resultados foram consistentes tanto na dose de 7,2 mg quanto na de 2,4 mg, embora a maior dosagem tenha apresentado ligeira vantagem na redução percentual. O grupo placebo não demonstrou mudança significativa.
O pesquisador Eric Lawitz, do Texas Liver Institute e da University of Texas Health San Antonio, ressaltou que “os resultados sugerem que a semaglutida pode ajudar a abordar a doença hepática em estágios iniciais, antes que ela se torne um problema de saúde grave”.
Implicações clínicas e recomendações práticas
Com base nos achados, a semaglutida pode ser considerada uma ferramenta promissora para o tratamento da gordura hepática em pacientes obesos, sobretudo aqueles que ainda não desenvolveram cirrose ou carcinoma. Contudo, a medicação ainda não está aprovada no Brasil para a dose de 7,2 mg, o que requer atenção regulatória.
Além da terapia farmacológica, especialistas enfatizam a importância de estratégias de estilo de vida. A combinação de perda de peso, dieta equilibrada e prática regular de atividade física continua sendo o alicerce do manejo da DHGNA.
Algumas diretrizes alimentares que podem potencializar os efeitos da semaglutida incluem:
- Frutas frescas e vegetais de cores variadas, ricos em antioxidantes.
- Leguminosas, como feijão, lentilha e grão‑de‑bico, que fornecem fibras e proteína vegetal.
- Cereais integrais, como aveia, quinoa e arroz integral, que ajudam a controlar a glicemia.
- Proteínas magras, como peixe, frango sem pele e tofu.
- Gorduras saudáveis, como abacate, oleaginosas (castanhas, nozes) e azeite extravirgem.
É fundamental evitar alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares simples e gorduras trans, que podem agravar a inflamação hepática. A ingestão moderada de álcool também é recomendada, já que o consumo excessivo pode potencializar a lesão hepática.
Para pacientes que iniciam o tratamento com semaglutida, o acompanhamento médico deve incluir monitoramento periódico da função hepática, avaliação de peso e exames de imagem quando indicado. A adesão ao plano terapêutico aumenta as chances de alcançar a normalização dos índices hepáticos.
Em resumo, a pesquisa reforça a ideia de que intervenções farmacológicas combinadas com mudanças de hábito podem reverter a esteatose precoce, reduzindo o risco de progressão para formas mais graves da doença.
Os próximos passos incluem a realização de estudos de longo prazo para avaliar a sustentabilidade dos efeitos e a segurança da semaglutida em doses mais altas. Além disso, será importante investigar seu impacto em subgrupos específicos, como pacientes com diabetes tipo 2 ou com histórico de doença cardiovascular.
Enquanto isso, profissionais de saúde são encorajados a considerar a semaglutida como parte de um plano integrado de tratamento, sempre alinhado às necessidades individuais de cada paciente.








