Na última sexta‑feira, 16 de outubro, os candidatos à presidência Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro ajustaram suas posições sobre temas-chave, na tentativa de atrair eleitores na reta final da disputa do segundo turno. As mudanças foram analisadas pelo editor Ricardo Ferraz, do VEJA, que destacou a influência das pesquisas recentes. O cenário se desenrola em meio a um clima de polarização e rejeição mútua entre os concorrentes.
Revisão da postura sobre a maioridade penal
Lula, que historicamente defendia a abordagem preventiva contra a violência, passou a apoiar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. A declaração foi feita durante a sabatina da TV Globo, quando o candidato enfatizou a necessidade de respostas mais duras diante da insegurança pública. Essa postura contrasta com a linha tradicional do PT, que prioriza políticas sociais e combate às causas estruturais da criminalidade.
Segundo Ferraz, a mudança reflete a pressão de eleitores que colocam a segurança como prioridade nas urnas. O editor interpreta que o candidato buscou se aproximar de eleitores indecisos que temem a escalada da violência nas grandes cidades. Essa estratégia pode ser vista como um ajuste tático para ganhar terreno nos estados onde a questão da segurança tem maior peso.
Entretanto, a proposta gerou críticas dentro da base partidária, que teme retrocessos nos direitos dos adolescentes. Organizações de direitos humanos já sinalizaram que a medida pode violar tratados internacionais. O debate ainda está em aberto, e a posição de Lula pode evoluir conforme a reação do eleitorado nas próximas pesquisas.
Fim da escala 6×1 e a jornada de trabalho
Flávio Bolsonaro, que anteriormente defendia a remuneração por hora trabalhada como alternativa à jornada tradicional, acabou apoiando o fim da escala 6×1 após a aprovação da medida no Senado. A mudança foi anunciada em sessão remota, e o candidato justificou a decisão como resposta ao clamor popular contra a sobrecarga de trabalho.
Ferraz apontou que a proposta original de Flávio enfrentou forte resistência de sindicatos e da classe média, que temiam a flexibilização excessiva dos direitos trabalhistas. O apoio ao fim da escala 6×1, portanto, pode ser entendido como uma tentativa de reconquistar eleitores que consideram a medida um benefício imediato.
Para ilustrar a repercussão, veja a lista de pontos principais levantados pelos analistas:
- Redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas;
- Eliminação da jornada de 6 dias de trabalho seguidos;
- Maior flexibilidade para acordos individuais entre empregadores e trabalhadores;
- Possível aumento da informalidade se a regulação não for bem acompanhada.
Embora a aprovação seja vista como uma vitória política para o governo, ainda não há consenso sobre seu impacto nas intenções de voto. As pesquisas ainda não capturaram plenamente a reação dos eleitores a essa mudança.
Estratégia de campanha baseada na rejeição ao adversário
Ambos os candidatos têm concentrado esforços em campanhas que enfatizam a rejeição ao oponente, ao invés de promover propostas próprias. Ferraz destacou que 17% dos eleitores de Flávio afirmam escolher o candidato apenas para impedir a volta do PT ao poder. Esse percentual indica uma motivação negativa que pode ser decisiva em uma disputa tão apertada.
Do lado de Lula, a parcela de eleitores que vota contra Flávio é menor, mas ainda significativa. O editor descreve esse fenômeno como “uma campanha por rejeições”, onde a narrativa gira em torno de impedir que o adversário vença, mais do que apresentar um programa de governo claro.
Essa dinâmica cria um ambiente onde os candidatos ajustam suas posições rapidamente, buscando alinhar-se com o “vento” do eleitorado. A flexibilidade ideológica tem sido a marca desta fase final da campanha, com declarações que muitas vezes contradizem posturas anteriores.
Impactos nas pesquisas e projeções eleitorais
O Datafolha divulgou recentemente que Flávio lidera com 51% dos votos válidos, enquanto Lula tem 49% nessa mesma métrica. Nos votos totais, os números são 47% para Flávio e 45% para Lula, indicando um empate técnico que pode mudar a qualquer momento. Esses índices refletem a volatilidade do eleitorado nas últimas semanas.
Ferraz alertou que as pesquisas ainda não medem o efeito do fim da escala 6×1 sobre a percepção dos trabalhadores. Enquanto isso, a proposta de redução da maioridade penal pode atrair eleitores preocupados com a segurança, mas também alienar aqueles que defendem direitos humanos.
Os analistas sugerem que, se as mudanças de postura continuarem a ser percebidas como oportunistas, o risco de perda de credibilidade pode pesar nas urnas. Por outro lado, a capacidade de adaptação pode ser vista como pragmatismo político, algo valorizado por eleitores indecisos.
Em resumo, a reta final da eleição está marcada por ajustes estratégicos, pressão das pesquisas e um clima de rejeição mútua que domina o discurso dos candidatos. O desenrolar desses fatores será decisivo para definir o vencedor do segundo turno.








