Em 2024, o Brasil se vê no centro de uma disputa bilionária envolvendo China e Estados Unidos pelo controle das chamadas terras raras, minerais estratégicos essenciais para tecnologias de ponta. O país, detentor da segunda maior reserva mundial desses elementos, pode transformar sua posição geopolítica e econômica, dependendo das escolhas feitas pelos governos e pela iniciativa privada.
O cenário internacional e a importância das terras raras
As terras raras são um conjunto de dezessete elementos químicos, entre eles neodímio, disprósio e térbio, que alimentam a produção de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos de telecomunicação e armamentos avançados. Em 2025, a China ainda dominava cerca de 85% da capacidade de refino global, o que gera preocupação em Washington sobre a dependência de um único fornecedor.
Os Estados Unidos, por sua vez, têm buscado diversificar suas fontes, firmando acordos de financiamento e apoio tecnológico com países que possuem reservas significativas, como o Brasil. Essa estratégia visa garantir a segurança das cadeias de suprimento e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Investimentos recentes: o acordo entre EUA e Serra Verde
Em junho de 2024, uma agência do Departamento de Energia dos EUA assinou um contrato de US$ 565 milhões com a Serra Verde, empresa de mineração localizada no estado de Goiás. O objetivo é ampliar a capacidade de extração e iniciar projetos piloto de beneficiamento avançado, reduzindo a necessidade de exportar o minério bruto.
O preço dos materiais varia conforme o grau de pureza e o processo de refino. Por exemplo, o óxido de neodímio processado, essencial para ímãs de alta potência usados em motores de veículos elétricos, chegou a custar US$ 73 o quilo em 2025. Esse valor demonstra o potencial de lucro para quem conseguir agregar valor ao produto no território nacional.
Desafios para o Brasil: da extração à industrialização
O maior obstáculo para o Brasil não está na disponibilidade de recursos, mas na capacidade de transformar esses recursos em produtos de alto valor agregado. Historicamente, o país tem exportado commodities em estado bruto, perdendo oportunidades de criar cadeias produtivas locais.
Para mudar esse panorama, é preciso investir em pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura de refino, treinamento de mão‑de‑obra especializada e políticas públicas que incentivem a indústria nacional. Sem esses pilares, o Brasil corre o risco de se tornar apenas um fornecedor de matéria‑prima, enquanto os lucros maiores permanecem nas mãos de empresas estrangeiras.
- Construção de unidades de refino de alta tecnologia.
- Parcerias entre universidades e indústrias para inovação.
- Incentivos fiscais para fabricantes que utilizem terras raras brasileiras.
- Desenvolvimento de normas ambientais rigorosas para garantir a sustentabilidade da mineração.
Impactos econômicos e sociais
Se bem aproveitada, a cadeia de valor das terras raras pode gerar milhares de empregos qualificados, especialmente nas regiões de mineração como Goiás, Minas Gerais e Pará. Além disso, a presença de fábricas de componentes eletrônicos e de motores elétricos pode dinamizar economias locais, atrair investimentos estrangeiros e estimular a criação de startups de tecnologia.
Por outro lado, a exploração desenfreada pode acarretar riscos ambientais, como contaminação de rios e degradação de ecossistemas. Portanto, a adoção de práticas sustentáveis e a fiscalização rigorosa são fundamentais para equilibrar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
Perspectivas para os próximos anos
Analistas apontam que, até 2030, a demanda global por terras raras pode dobrar, impulsionada pela transição energética e pela expansão de tecnologias militares avançadas. Nesse contexto, o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como um hub estratégico, fornecendo não apenas matéria‑prima, mas também componentes críticos para a cadeia de suprimentos internacional.
Entretanto, a concretização desse futuro depende de decisões políticas claras, de investimentos consistentes em infraestrutura e de um ambiente regulatório que favoreça a inovação sem comprometer a sustentabilidade. O país ainda precisa definir se será um mero exportador de minério ou um protagonista na produção de tecnologias de ponta.
Em suma, a disputa entre China e Estados Unidos por terras raras coloca o Brasil em uma encruzilhada decisiva. O caminho escolhido determinará se o país aproveitará a oportunidade para impulsionar sua indústria, gerar empregos qualificados e fortalecer sua soberania tecnológica, ou se permanecerá à mercê das dinâmicas de mercado externas.







