Na última quarta‑feira, no estúdio da Globo em Rio de Janeiro, foi lançado o episódio 369 do podcast Bem‑Estar, dedicado a analisar a ansiedade e outros transtornos mentais que afetam crianças, adolescentes e jovens adultos no Brasil. O programa contou com a participação da Dra. Claudia Buchweitz, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, e do Dr. Pedro Pan, da Unifesp, que compartilharam dados recentes e orientações práticas. O objetivo foi esclarecer pais, educadores e amigos sobre como reconhecer e apoiar quem sofre com esses desafios.
O panorama dos transtornos mentais entre jovens brasileiros
Segundo o estudo divulgado na revista The Lancet, cerca de um em cada cinco jovens brasileiros tem diagnóstico de algum problema de saúde mental, o que representa aproximadamente 15,6 milhões de pessoas. Esses números são alarmantes porque revelam que a maioria ainda está em fase escolar ou universitária, o que pode comprometer seu desenvolvimento acadêmico e social.
Os transtornos mais frequentes são a ansiedade e a depressão, que costumam se manifestar simultaneamente e agravar o sofrimento emocional. A ansiedade pode gerar preocupação excessiva, medo constante e até crises de pânico, enquanto a depressão costuma provocar falta de energia, desânimo e isolamento. Quando não tratadas, ambas interferem no autocuidado, nas tarefas diárias e nas relações interpessoais.
Os especialistas ressaltam que o ambiente escolar tem papel central na identificação precoce desses quadros. Professores que observam mudanças de comportamento podem acionar a rede de apoio e encaminhar o estudante para avaliação especializada. Além disso, políticas públicas que garantam acesso a serviços de saúde mental nas escolas são fundamentais para reduzir a lacuna de tratamento.
Sinais de alerta que os pais e responsáveis devem observar
Identificar um transtorno mental na infância ou adolescência exige atenção a sinais que podem passar despercebidos. A seguir, listamos alguns indícios que merecem atenção imediata:
- Alterações no sono: insônia frequente ou sono excessivo sem motivo aparente.
- Queda no rendimento escolar: notas baixas, desinteresse nas atividades e dificuldade de concentração.
- Isolamento social: afastamento de amigos, recusa em participar de eventos familiares.
- Comportamento irritável: explosões de raiva desproporcionais ou irritabilidade constante.
- Queixas somáticas: dores de cabeça ou de estômago sem causa médica identificada.
Quando esses comportamentos persistem por mais de duas semanas, é recomendável buscar avaliação com psicólogo ou psiquiatra infantil. A intervenção precoce aumenta as chances de recuperação e diminui o risco de complicações futuras, como o desenvolvimento de transtornos mais graves na vida adulta.
A Dra. Claudia enfatiza que o diálogo aberto é essencial. Perguntar ao jovem como ele se sente, sem julgamentos, cria um espaço seguro para que ele expresse emoções que antes mantinha ocultas. Esse tipo de comunicação pode ser o primeiro passo para a busca de ajuda profissional.
Estratégias de prevenção e cuidado efetivo
Além da identificação, o podcast trouxe recomendações práticas para promover a saúde mental no cotidiano das famílias. Entre as estratégias destacadas, estão:
- Rotina estruturada: estabelecer horários regulares para sono, refeições e estudos, proporcionando previsibilidade.
- Atividades físicas: incentivar a prática de esportes ou caminhadas, que liberam endorfinas e reduzem a ansiedade.
- Mindfulness e respiração: técnicas simples de atenção plena que ajudam a controlar pensamentos acelerados.
- Limitação do tempo de tela: reduzir o uso excessivo de smartphones e redes sociais, que podem intensificar comparações negativas.
- Rede de apoio: manter contato próximo com familiares, amigos e profissionais de saúde.
O Dr. Pedro Pan destaca que a escola pode integrar essas práticas ao currículo, oferecendo oficinas de bem‑estar e espaços de escuta. Programas de prevenção que envolvem professores, psicólogos escolares e pais tendem a gerar resultados mais consistentes, pois criam um ambiente de suporte contínuo.
Quando o diagnóstico já foi estabelecido, o tratamento costuma combinar psicoterapia, medicação (quando indicada) e intervenções familiares. A terapia cognitivo‑comportamental, por exemplo, tem eficácia comprovada no manejo da ansiedade em adolescentes, ajudando a reestruturar padrões de pensamento disfuncionais.
É importante lembrar que cada caso é único. O acompanhamento regular permite ajustes na abordagem terapêutica, garantindo que o jovem receba o suporte adequado ao longo do tempo. A adesão ao tratamento também depende do envolvimento da família, que deve reforçar a importância das sessões e do uso correto de medicamentos.
Por fim, a mensagem central dos especialistas foi clara: a saúde mental deve ser tratada com a mesma seriedade que a saúde física. Investir em prevenção, diagnóstico precoce e cuidados integrados pode transformar o futuro de milhões de jovens brasileiros, permitindo que eles alcancem seu potencial pleno.








