Um estudo conduzido pela Fiocruz revelou que a profilaxia pré‑exposição injetável (PrEP) baseada em cabotegravir apresentou alta adesão e reduziu significativamente a incidência de HIV no Brasil. A pesquisa, publicada em 24 de julho de 2024 na revista The Lancet HIV, analisou dados coletados em seis capitais brasileiras entre outubro de 2023 e outubro de 2025. O levantamento envolveu mais de mil participantes do Sistema Único de Saúde.
Metodologia e perfil dos participantes
O estudo ImPrEP CAB Brasil foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) em parceria com unidades de saúde de seis cidades. Os locais incluíram:
- Rio de Janeiro
- São Paulo
- Campinas
- Florianópolis
- Manaus
- Salvador
Foram recrutados 1.201 indivíduos, entre homens gays, outros homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas não binárias e transexuais, com idades entre 18 e 30 anos. A seleção priorizou quem tinha risco elevado de exposição ao vírus, garantindo representatividade das principais populações vulneráveis.
Os participantes foram divididos em duas coortes: a que recebeu cabotegravir injetável e a que continuou com a PrEP oral já disponível no SUS. O acompanhamento se estendeu até 16 de outubro de 2025, permitindo analisar tanto a efetividade clínica quanto a viabilidade operacional da nova estratégia.
Resultados de adesão e eficácia
A principal métrica de adesão foi a porcentagem de dias cobertos pela prevenção. Quem usou o cabotegravir manteve 90,8% dos dias de acompanhamento protegidos, enquanto a PrEP oral registrou apenas 35,5%.
Além da aderência, o estudo mediu a incidência de novas infecções. Na coorte injetável, foram três casos de HIV, correspondendo a 0,20 caso por 100 pessoas‑ano. Na comparação oral, ocorreram 18 casos, ou 1,48 caso por 100 pessoas‑ano.
A taxa de aplicação pontual das injeções também foi alta: 92% das doses foram administradas dentro do prazo previsto pelo protocolo. Esse número reforça a praticidade de um esquema bimestral frente ao regime diário de comprimidos.
Impacto para o SUS e perspectivas de incorporação
O cabotegravir recebeu aprovação da Anvisa em 2023, mas sua inclusão no SUS depende de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). O ImPrEP CAB Brasil fornece as evidências exigidas para essa análise, combinando eficácia clínica com dados de implementação real.
Em julho de 2024, o ministro da Saúde anunciou acordo de preço com o fabricante, considerado adequado para compra pública. A proposta foi encaminhada à Conitec em agosto, seguida de consulta pública que se encerrou no fim do mesmo mês.
As reuniões mensais da Conitec sugerem que a pauta deve ser discutida em outubro, o que pode acelerar a decisão sobre a incorporação da PrEP injetável ao portfólio de serviços do SUS.
Enquanto isso, a PrEP oral continua disponível gratuitamente, garantindo que a população ainda tenha acesso a uma forma comprovada de prevenção. A coexistência das duas modalidades pode ampliar a cobertura, atendendo a diferentes preferências e estilos de vida.
Considerações finais e recomendações de saúde pública
Os resultados apontam que a PrEP injetável pode transformar a estratégia nacional de prevenção ao HIV, sobretudo entre jovens adultos que enfrentam barreiras para a adesão diária. A redução de 87% na incidência comparada à PrEP oral demonstra um potencial de impacto epidemiológico significativo.
Especialistas recomendam que políticas públicas priorizem a oferta de ambas as opções, permitindo que cada indivíduo escolha a modalidade que melhor se adapta ao seu cotidiano. Investimentos em treinamento de profissionais de saúde e em logística de distribuição de injeções serão essenciais para o sucesso da implementação.
Em síntese, o estudo da Fiocruz não só confirma a eficácia do cabotegravir, mas também oferece um modelo de implementação que pode ser replicado em outros países de baixa e média renda, contribuindo para a meta global de eliminação do HIV até 2030.








