Mulheres que utilizam medicamentos incretina para controle de peso e metabolismo devem interromper o uso ao confirmar a gestação, segundo diretrizes recentes. A revisão internacional, publicada em 2026 na revista Obesity Reviews, analisou 34 estudos e trouxe recomendações claras para profissionais de saúde. O estudo foi coordenado por pesquisadores da Universidade de Plymouth e contou com a participação de especialistas brasileiros.
Por que interromper o tratamento ao engravidar?
A endocrinologista Lorena Lima Amato, da USP, destaca que o objetivo das medicações incretina antes da gravidez é melhorar o quadro metabólico, facilitando a regularização do ciclo menstrual e a ovulação. Quando a gestação é confirmada, o risco de efeitos desconhecidos sobre o feto exige a suspensão imediata do fármaco. A recomendação é baseada no princípio de precaução, já que os dados sobre uso prolongado durante a gestação ainda são escassos.
Além da segurança fetal, a interrupção ajuda a evitar possíveis interações com suplementos vitamínicos e alterações hormonais típicas da gravidez. A maioria das pesquisas incluídas na revisão avaliou exposições acidentais no início da gestação e não encontrou aumento significativo de malformações congênitas, mas isso não equivale a prova de segurança total.
O que a revisão revelou sobre riscos de anomalias congênitas
Dos 34 trabalhos analisados, nenhum registrou elevação do risco de grandes malformações quando a exposição ocorreu nos primeiros meses de gestação. Os casos variaram de relatos individuais a um estudo observacional com mais de quatro mil embarazos, reforçando a consistência dos achados. Ainda assim, a maioria das evidências provém de exposições não intencionais, o que limita a generalização dos resultados.
Amato ressalta que a ansiedade das gestantes ao descobrir a gravidez enquanto utilizam a medicação é compreensível, mas os dados atuais sugerem que não há necessidade de pânico imediato. O aconselhamento adequado e o acompanhamento clínico são essenciais para tranquilizar a paciente e garantir a saúde materna e fetal.
Recomendações práticas para profissionais de saúde
Com base nos resultados da revisão, um painel internacional de especialistas elaborou diretrizes que podem ser aplicadas no atendimento diário. As recomendações visam padronizar o manejo de mulheres em idade reprodutiva que utilizam medicamentos incretina e garantir a segurança durante a gestação.
- Realizar avaliação pré-concepção: discutir planos de gravidez e orientar sobre a necessidade de interromper o uso antes da tentativa de concepção.
- Fornecer orientação contraceptiva eficaz enquanto a medicação estiver em uso.
- Ao confirmar a gestação, suspender imediatamente o medicamento e iniciar acompanhamento obstétrico especializado.
- Monitorar parâmetros metabólicos (glicemia, pressão arterial, peso) durante a gestação, ajustando o tratamento conforme necessário.
- Educar a paciente sobre sinais de hipoglicemia ou outras reações adversas que possam surgir após a interrupção.
Essas medidas ajudam a minimizar riscos potenciais e a manter o controle de condições como síndrome dos ovários policísticos e resistência à insulina, que podem ser agravadas pela interrupção abrupta sem acompanhamento.
Perspectivas futuras e lacunas de conhecimento
Embora a revisão tenha avançado na compreensão dos efeitos das incretinas na gestação, ainda há perguntas sem resposta. Das 32 questões formuladas pelos pesquisadores, apenas 18 contaram com evidência robusta, deixando 14 áreas ainda desconhecidas. Estudos longitudinais que acompanhem gestantes desde o primeiro trimestre até o pós-parto são necessários para definir a segurança a longo prazo.
Além disso, a pesquisa deve explorar se há diferenças de risco entre os diversos fármacos da classe (semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida e tirzepatida) e se doses específicas influenciam os resultados. Enquanto isso, a recomendação padrão permanece: não manter deliberadamente essas medicações durante a gravidez.
Profissionais de saúde devem manter-se atualizados sobre novas evidências e adaptar suas práticas conforme surgirem dados mais consistentes. O diálogo aberto entre obstetra, endocrinologista e paciente é fundamental para decisões informadas e seguras.








