O levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo) revelou que o Brasil registrou um déficit comercial de R$ 8,73 bilhões no setor entre janeiro e setembro de 2026, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O déficit reflete um desequilíbrio crescente nas transações internacionais de equipamentos médicos, com impactos diretos na indústria nacional.
Contexto econômico e comercial
Nos primeiros nove meses de 2026, as importações de dispositivos médicos cresceram 14%, enquanto as exportações recuaram 8,57%. Esse contraste gerou uma relação desfavorável, onde cada dólar obtido com exportação foi compensado por doze dólares em importações.
O cenário se insere em um contexto global de alta volatilidade cambial e aumento de tarifas, especialmente nas relações comerciais com os Estados Unidos, que continuam sendo o principal destino das exportações brasileiras de equipamentos médicos.
Além disso, a desaceleração econômica interna, marcada por inflação elevada e restrição de crédito, tem limitado a capacidade de investimento das empresas do setor, reduzindo a demanda por novos produtos e inovações.
O déficit também evidencia a dependência do país em relação a tecnologias estrangeiras, muitas vezes mais avançadas e produzidas em escala, o que eleva o custo final dos dispositivos importados.
Fatores que impulsionam o déficit
Um dos principais motores do aumento das importações foi a necessidade de suprir lacunas tecnológicas em áreas como diagnóstico por imagem, equipamentos de terapia intensiva e dispositivos de monitoramento remoto.
Essas lacunas são frequentemente preenchidas por produtos de origem norte‑americana, europeia e asiática, que apresentam certificações internacionais e maior confiabilidade percebida pelos hospitais e clínicas.
Ao mesmo tempo, a queda nas exportações decorreu de dois fatores críticos: a perda de competitividade de preço frente a concorrentes internacionais e a redução de demanda externa devido a políticas protecionistas adotadas por alguns mercados.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre componentes eletrônicos e materiais de alta tecnologia aumentaram os custos de produção nacionais, tornando os produtos brasileiros menos atraentes no mercado externo.
Outro elemento relevante foi a diminuição das encomendas de países da América Latina, que historicamente importam dispositivos médicos brasileiros, afetando a balança comercial regional.
- Chile: aumento de 50,01% nas importações
- México: crescimento de 13,93%
- Paraguai: alta de 6,29%
- Argentina: elevação de 6,19%
Esses números demonstram que, embora alguns parceiros estejam ampliando suas compras, o volume total ainda não compensa o desequilíbrio gerado pelos Estados Unidos.
Impactos e estratégias para o setor
Para a Abimo, os dados apontam desafios estruturais, mas também oportunidades de reposicionamento estratégico. Segundo Larissa Gomes, gerente de Projetos e Marketing da entidade, é imprescindível fortalecer a cadeia produtiva nacional.
Investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) são apontados como cruciais para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira e gerar soluções inovadoras que atendam tanto ao mercado interno quanto ao externo.
Além disso, a diversificação de mercados deve ser intensificada, buscando novos destinos na África, Oriente Médio e Sudeste Asiático, regiões que apresentam demanda crescente por equipamentos de saúde de qualidade.
As empresas brasileiras também precisam adotar práticas de certificação internacional, como ISO 13485, para garantir a aceitação de seus produtos em mercados regulados.
Outra estratégia recomendada é a formação de consórcios industriais, que permitem a compartilhamento de recursos, redução de custos de produção e ampliação da capacidade de exportação.
O governo federal tem papel fundamental ao criar políticas de incentivo fiscal, linhas de crédito específicas para o setor e acordos comerciais que reduzam barreiras tarifárias.
Por fim, a digitalização dos processos de produção e a adoção de manufatura avançada podem melhorar a eficiência operacional, reduzindo o custo unitário dos dispositivos e tornando-os mais competitivos internacionalmente.








