Em meados de 2023, Jeff Will, um eletricista de 70 anos residente na Pensilvânia, começou a apresentar episódios de confusão que confundiram familiares e colegas. Ele esquecia detalhes de reuniões, perambulava pela casa e, em um caso, vestiu um suéter da esposa como se fosse calça. Esses sinais iniciais despertaram preocupação tanto no trabalho quanto em casa.
Os primeiros sinais de confusão
Os funcionários da empresa de instalações elétricas de Jeff notaram que ele ficava alheio durante as discussões e não recordava decisões importantes. Quando a situação se agravou, ligaram para a esposa, pedindo que fosse buscá‑lo. Em casa, as crises se manifestavam como períodos de desorientação, olhar fixo para o vazio e perambulações sem rumo.
“Mais ou menos uma vez por mês, eu acordava sem saber exatamente onde estava ou o que estava fazendo”, relata Jeff, agora com 73 anos. Ele descreve a sensação como um “apagão” que durava de alguns minutos a várias horas, o que acabou motivando a venda da empresa que conduzia há décadas.
Diagnóstico tardio e descoberta na Cleveland Clinic
Durante quase três anos, Jeff e sua esposa buscaram respostas em hospitais, consultórios de neurologia, neuropsicologia e psiquiatria, sem sucesso. As avaliações cognitivas mostraram pontuações dentro da média para a idade, e as imagens de ressonância magnética pareciam normais para um septuagenário.
Desesperados, decidiram procurar a Cleveland Clinic, onde os especialistas identificaram a causa: crises epilépticas silenciosas que mimetizavam sintomas de demência. O tratamento com um anticonvulsivante comum interrompeu imediatamente os surtos de confusão e a perda de memória.
Como as crises epilépticas imitam a demência
Estudos recentes apontam que crises epilépticas podem gerar déficits cognitivos semelhantes aos observados em Alzheimer e outras demências. O risco de desenvolver demência aumenta de duas a três vezes em quem tem epilepsia, e o inverso também ocorre.
Os déficits provocados pela epilepsia costumam ser diferentes dos típicos da doença de Alzheimer. Eles podem surgir durante a própria crise, muitas vezes de forma tão sutil que passam despercebidos, ou na fase pós‑ictal, quando o cérebro ainda está se recuperando.
Na fase pós‑ictal, o paciente pode não responder a perguntas, apresentar lapsos de memória que duram horas ou dias e, em alguns casos, esquecer detalhes de eventos recentes, como o enredo de um filme assistido poucos dias antes.
- Risco de demência em pacientes com epilepsia: 2‑3 vezes maior.
- Risco de crises epilépticas em pacientes com demência: 2‑3 vezes maior.
- Estimativa mínima: 10% das pessoas com demência desenvolvem algum tipo de crise epiléptica.
- As crises podem ocorrer durante o sono e serem totalmente imperceptíveis.
Implicações para pacientes e profissionais de saúde
Para médicos, reconhecer que a epilepsia pode se apresentar como declínio cognitivo é crucial, sobretudo em idades avançadas, quando tanto a demência quanto a epilepsia são mais prevalentes. O diagnóstico precoce permite iniciar tratamento anticonvulsivante, que pode reverter ou atenuar os sintomas cognitivos.
Para pacientes e familiares, a mensagem é ficar atento a episódios de confusão que surgem de forma intermitente, especialmente se acompanhados de comportamentos incomuns durante o sono. Relatar esses episódios ao neurologista pode evitar um diagnóstico equivocado de demência.
Além do tratamento medicamentoso, intervenções de reabilitação cognitiva e programas de estimulação cerebral podem ser úteis, mas só quando a causa epiléptica foi descartada ou controlada.
O caso de Jeff Will ilustra como uma condição tratável pode ser confundida com um processo neurodegenerativo irreversível. Ele agora vive com qualidade de vida, graças à terapia anticonvulsivante que estabilizou sua atividade elétrica cerebral.
Especialistas reforçam a necessidade de pesquisas mais aprofundadas para determinar a frequência exata com que crises silenciosas desencadeiam déficits cognitivos e para desenvolver protocolos de triagem que incluam eletroencefalogramas de rotina em pacientes com suspeita de demência.








