Um estudo recente revelou que o tráfico de animais, plantas e fungos está se proliferando nas redes sociais, com anúncios de espécies ameaçadas surgindo em plataformas como Facebook, Instagram, TikTok e Shopee. A pesquisa, publicada na revista Nature Reviews Biodiversity, analisou dados coletados em 2025 e mostrou como o comércio clandestino ganha velocidade e alcance na internet.
A expansão do tráfico nas redes sociais
Os pesquisadores monitoraram mais de 280 plataformas digitais durante seis semanas e identificaram 33.006 exemplares de espécies protegidas pela Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES). Desses, 54% eram animais vivos, enquanto 46% correspondiam a partes ou produtos derivados.
Entre os animais listados estavam primatas, aves, serpentes e rãs; nas plantas, destacaram‑se orquídeas, cactos e suculentas do gênero Conophytum. O monitoramento também revelou a presença de mais de 1.600 primatas anunciados para venda em apenas quatro redes sociais, evidenciando a magnitude do problema.
Os canais digitais oferecem três vantagens que facilitam a prática ilícita: anonimato para os vendedores, baixa percepção de risco por parte dos compradores e a rapidez das transações, que podem ser concluídas em minutos. Além disso, a falta de uma regulação consistente nas plataformas permite que anúncios sejam publicados e removidos com pouca ou nenhuma intervenção.
- Facebook e Instagram – principais vitrines de anúncios de animais exóticos.
- TikTok – vídeos curtos que exibem espécies raras como atrativos.
- Alibaba e Shopee – marketplaces que hospedam vendedores de plantas suculentas.
- YouTube – canais que divulgam tutoriais de criação de répteis e aves.
Impactos ambientais e de saúde
O tráfico de espécies não afeta apenas a biodiversidade; ele também cria riscos sanitários. A movimentação de animais silvestres pode facilitar a transmissão de zoonoses, doenças que saltam da fauna para os seres humanos. Além disso, a introdução de espécies invasoras em novos habitats pode desequilibrar ecossistemas locais, reduzindo a resiliência ambiental.
Na África, o caso dos papagaios-cinzentos-africanos ilustra a escala do comércio internacional: entre 2010 e 2021, cerca de 800 mil indivíduos foram negociados, muitas vezes através de grupos fechados no Facebook. No sul da África, o bioma do Karoo Suculento viu o preço da suculenta Conophytum despencar para um centésimo do valor original em três anos, após o mercado ilegal ficar saturado.
Com a queda dos preços, os traficantes migraram para outras espécies, ampliando a pressão sobre répteis e outras plantas raras. Essa dinâmica cria um ciclo vicioso: à medida que uma espécie se torna menos lucrativa, os criminosos buscam novas oportunidades, ampliando a lista de alvos vulneráveis.
Desafios e caminhos para o combate
Os autores do estudo apontam que, apesar da riqueza de dados, ainda há lacunas significativas na mensuração do volume real do comércio e no entendimento do comportamento dos consumidores. Essa falta de informação dificulta a formulação de políticas públicas eficazes e a implementação de mecanismos de monitoramento mais precisos.
Para enfrentar o problema, especialistas defendem uma abordagem multifacetada. Primeiro, as plataformas digitais precisam adotar políticas de remoção mais rígidas e algoritmos de detecção que identifiquem anúncios suspeitos. Segundo, a cooperação internacional entre órgãos de fiscalização, ONGs e comunidades locais é essencial para rastrear rotas de tráfico e punir os responsáveis.
Além disso, a conscientização dos usuários é um pilar fundamental. Campanhas educativas que mostrem os impactos ambientais e de saúde do comércio ilegal podem reduzir a demanda. Quando os consumidores reconhecem que adquirir um animal exótico pode contribuir para o declínio de espécies e aumentar riscos sanitários, a pressão sobre o mercado diminui.
Por fim, o fortalecimento de legislações nacionais, alinhadas aos acordos internacionais como a CITES, deve ser acompanhado de recursos financeiros e técnicos para a aplicação da lei. Só assim será possível criar um ambiente regulatório que desincentive a prática e proteja a biodiversidade global.








