Em 2024, a Polícia Federal revelou que o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, empregou uma empresa com capital social de apenas R$ 100 para falsificar a origem de R$ 7,155 bilhões em empréstimos consignados. A operação, que se estendeu até abril de 2025, ocorreu principalmente em São Paulo, onde a suposta sede da empresa ficava na Avenida Paulista.
Como a empresa Tirreno foi criada e estruturada
A entidade, inicialmente registrada como SX 016 Empreendimentos e Participações S.A., foi constituída em 1º de outubro de 2024 com capital social nominal de R$ 100. Dos R$ 100, apenas R$ 10 foram efetivamente integralizados pelos sócios fundadores, Daniel Moreira Bezerra e Katia Caroline Cunha Silva.
Em dezembro de 2024, a companhia mudou seu nome para Tirreno Consultoria Promotora de Crédito e Participações S.A. e alterou seu objeto social, passando a atuar como consultoria de vendas e promoção de crédito. Na mesma época, foi aprovado um aumento de capital que elevaria o valor declarado da empresa para R$ 30 milhões, supostamente a ser aportado por Henrique S. S. Peretto em até 12 meses.
A perícia da PF não encontrou nenhum comprovante de que os R$ 30 milhões foram depositados, indicando que o aumento de capital nunca se concretizou. Até 15 de abril de 2025, quando as alterações societárias foram registradas na Junta Comercial de São Paulo, a empresa ainda constava como SX 016, com apenas R$ 10 de capital efetivamente integralizado.
Mesmo sem recursos reais, a Tirreno já havia firmado contratos com o Banco Master que totalizavam quase R$ 6 bilhões, muito antes da formalização das mudanças societárias.
O esquema de cessão de créditos e as irregularidades
Segundo a investigação, a Tirreno figurava nos documentos como responsável por originar e ceder carteiras de crédito ao Banco Master. Na prática, o dinheiro das cessões nunca foi transferido para a empresa; os valores foram registrados apenas nos sistemas internos do próprio banco.
Mais de um milhão de contratos foram lançados no sistema do Master, formando uma carteira de crédito atribuída à Tirreno. Entre dezembro de 2024 e abril de 2025, foram assinados 28 contratos de cessão de crédito, dos quais 26 somavam R$ 6,34 bilhões. A assinatura de André Felipe de Oliveira Seixas Maia ocorreu antes que seu nome fosse oficialmente registrado como diretor na Junta Comercial.
- Reconhecimento tardio das firmas em 13 e 14 de maio de 2025, caracterizando formalização cartorária atrasada.
- Empregadores com cadastros inconsistentes e inexistentes.
- Produção de documentos falsos em larga escala dentro da estrutura do Banco Master.
- Ausência de movimentação bancária real na conta da Tirreno.
Os créditos foram posteriormente revendidos ao Banco de Brasília (BRB). Inicialmente, o BRB adquiriu as carteiras sem a devida verificação documental; só mais tarde passou a exigir comprovações, o que levantou suspeitas sobre a legitimidade das operações.
A sede declarada da Tirreno, na Avenida Paulista, revelou-se apenas um espaço de coworking durante a operação de busca e apreensão. Não foram encontrados contratos de aluguel, nem despesas operacionais, nem registros de funcionários, contribuições previdenciárias ou notas fiscais.
Repercussões e investigações da Polícia Federal
O Supremo Tribunal Federal autorizou a quebra do sigilo fiscal da empresa e de seus sócios, permitindo à PF cruzar dados da Receita Federal e confirmar a ausência de movimentação financeira compatível com os bilhões declarados.
A perícia destacou que a estrutura formal da Tirreno era incompatível com o volume de contratos e valores envolvidos, indicando um esquema de fraude coordenado para inflar o volume de consignados e, assim, gerar ganhos ilícitos para o Banco Master.
O ministro do STF, Alexandre de Moraes, concedeu ao juiz federal Luiz Roberto Barroso, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, 24 horas para que o ex‑presidente do Banco Master, José Mendonça, liberasse documentos sigilosos relacionados ao caso.
Enquanto isso, o BRB está sob pressão para revisar todas as aquisições de carteiras de crédito realizadas entre 2024 e 2025, a fim de identificar possíveis prejuízos e repassar responsabilidades.
A investigação ainda está em curso, e novas diligências devem ser realizadas para mapear toda a cadeia de beneficiários e identificar eventuais conivências de outras instituições financeiras.








