Na última semana, a Polícia Federal divulgou documentos que apontam pagamentos antecipados e falhas de controle nas negociações entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). O levantamento, que ganhou destaque após o ministro André Mendonça, do STF, romper o sigilo das investigações, revela que as transações ocorreram entre julho de 2024 e novembro de 2025, principalmente em Brasília.
Contexto das negociações e primeiros alertas
Quando o BRB intensificou a compra de carteiras de crédito do Banco Master, já existiam sinais de alerta internos. Relatórios internos de setembro e dezembro de 2024 mostraram um crescimento acelerado dos ativos do Master, que aumentaram 83,5% em apenas um ano, chegando a R$ 50,9 bilhões.
Esses números foram acompanhados por um aumento de 81,6% na carteira de crédito, que atingiu R$ 21 bilhões, e por uma reserva de cobertura de risco que subiu 82,9%. Apesar desses indicadores, a diretoria do BRB autorizou, em 17 de julho de 2024, um gasto de até R$ 750 milhões para adquirir esses créditos.
Riscos identificados e a inversão de procedimentos
A perícia da PF constatou que, embora os relatórios internos estivessem disponíveis, não havia documentação que comprovasse uma avaliação independente e abrangente dos riscos associados à concentração de negócios no Banco Master.
Um dos pontos críticos foi a inversão do processo padrão de compra. Em vez de analisar riscos, preços e documentação antes do desembolso, o BRB liberou recursos primeiro e concluiu as avaliações técnicas somente depois.
- 84 compras de carteiras de crédito foram analisadas, totalizando R$ 17,58 bilhões.
- Em 22 dessas operações, equivalentes a R$ 7,63 bilhões, ao menos uma avaliação obrigatória foi concluída após o pagamento.
- As avaliações tardias tratavam de aspectos essenciais, como a qualidade dos ativos e a capacidade de pagamento dos devedores.
Segundo os peritos, essa prática elimina a função preventiva da análise, pois, uma vez que o dinheiro já foi transferido, não há como reverter a operação ou renegociar condições.
Impactos financeiros e operacionais
O relatório da consultoria RISKBank/Eleven, elaborado em novembro de 2024, destacou que o volume de crédito do Master correspondia a 7,4 vezes o seu patrimônio líquido, indicando vulnerabilidade ao risco de liquidez.
Além disso, a estratégia comercial agressiva do Banco Master, combinada com um caixa reduzido, aumentou a exposição do BRB a potenciais calotes.
Os documentos da PF também apontam que, apesar dos alertas internos sobre documentação incompleta e inconsistências, a diretoria do BRB continuou aprovando novas operações, ampliando ainda mais a exposição ao risco.
Repercussões legais e próximas etapas
Com a quebra de sigilo pelo ministro André Mendonça, os documentos passaram a ser públicos, permitindo que o Ministério Público e a Justiça Federal avaliem a responsabilidade dos gestores do BRB e do Banco Master.
Os investigadores sugerem que podem ser instaurados processos por improbidade administrativa, crime de apropriação indébita e possíveis fraudes contra investidores.
Enquanto isso, a PF recomenda que o BRB suspenda temporariamente novas aquisições de carteiras de crédito até que sejam realizados auditorias independentes e implementados controles internos mais rígidos.
O que dizem os especialistas
Especialistas em governança corporativa ressaltam que a falta de uma avaliação de risco prévia compromete a sustentabilidade financeira das instituições. “Quando o pagamento antecede a análise, cria‑se um ponto de vulnerabilidade que pode desencadear perdas significativas”, afirma a consultora financeira Ana Lúcia Silva.
Já o economista Carlos Mendes destaca que o caso evidencia a necessidade de reguladores mais rigorosos sobre a compra de carteiras de crédito entre bancos públicos e privados, sobretudo em um cenário de alta volatilidade econômica.
Em entrevista, o presidente do BRB, João Pereira, garantiu que a instituição está cooperando integralmente com as investigações e que medidas corretivas já estão sendo implementadas para reforçar a governança.
Perspectivas para o futuro
Se as investigações confirmarem as irregularidades apontadas, o BRB poderá enfrentar sanções que impactem seu capital e sua reputação no mercado. Por outro lado, a correção dos processos internos pode servir de exemplo para outras instituições que realizam operações semelhantes.
O caso também pode motivar o STF a definir novos parâmetros para a quebra de sigilo em investigações financeiras, equilibrando a necessidade de transparência com a proteção de informações sensíveis.
Enquanto isso, investidores e analistas acompanham de perto os desdobramentos, que podem influenciar a avaliação de risco de ambos os bancos nos próximos relatórios de crédito.








