O número de casos de pneumonia no estado de São Paulo tem apresentado um crescimento alarmante nos últimos três anos, com internações quase triplicando desde o fim da pandemia. Os dados, referentes ao período de janeiro de 2022 a agosto de 2025, foram divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde e revelam um cenário de preocupação para autoridades e profissionais da saúde.
Crescimento dos casos e internações
Os registros apontam que, em 2022, foram realizados 104.125 procedimentos clínicos de baixa complexidade relacionados à pneumonia. No ano de 2023, esse número subiu para 125.515, representando um aumento de 20,54% em relação ao ano anterior. Até o fim de agosto de 2025, 79.549 pessoas já estavam internadas, o que também corresponde a um acréscimo de cerca de 20% quando comparado ao mesmo período de 2024.
A taxa de atendimentos é ainda mais expressiva. Em 2022, o estado contabilizou 52.010 casos atendidos, enquanto em 2024 esse número saltou para 132.896, um salto de 155%. Até agosto de 2025, os atendimentos somaram 122.808, indicando que a tendência de alta ainda persiste.
Causas apontadas pelos especialistas
Três especialistas consultados confirmam que o aumento não se restringe ao estado, mas reflete um padrão nacional. Eles destacam, entre outras questões, a chamada “pneumonia silenciosa”, que apresenta sintomas iniciais mais brandos e costuma ser confundida com gripe ou resfriado.
Segundo Bernardo Mulinari Pessoa, mestre em saúde pública pela Johns Hopkins University, a relaxação nas medidas sanitárias após a pandemia – como o uso de máscaras e a higiene das mãos – contribuiu para a vulnerabilidade da população. Ele também menciona a queda nos índices de vacinação como fator agravante.
Os profissionais apontam ainda a diversificação de cepas como elemento crítico. Enquanto a Streptococcus pneumoniae continua sendo a causa mais comum, cepas como Mycoplasma pneumoniae e micobactérias não tuberculosas têm gerado quadros mais graves e menos responsivos aos tratamentos tradicionais.
- Redução da cobertura vacinal contra influenza e pneumococo;
- Uso crescente de cigarros eletrônicos sem regulamentação;
- Automedicação e diagnóstico tardio devido à semelhança com gripe;
- Imunidade populacional enfraquecida pós‑pandemia.
Cláudio Miranda, pneumologista do Hospital São Francisco em Mogi Guaçu, ressalta que a baixa adesão às vacinas contra influenza abre caminho para infecções virais que, por sua vez, facilitam a invasão bacteriana nos pulmões. João Carlos de Jesus, coordenador do ambulatório de asma grave do Hospital Vera Cruz, reforça que a combinação de fatores virais e bacterianos eleva tanto a incidência quanto a gravidade dos casos.
Um aspecto adicional mencionado por especialistas é o impacto dos dispositivos de vaporização. Em 2019, os Estados Unidos registraram um surto de pneumonia associada a um tipo específico de cigarro eletrônico que continha vitamina D em doses elevadas, resultando em 3.000 casos e 70 mortes. No Brasil, a falta de regulamentação impede a identificação precisa dos componentes desses dispositivos, dificultando a avaliação de riscos.
Medidas de prevenção e recomendações
Os médicos concordam que a vacinação permanece a estratégia mais eficaz para conter a propagação e a gravidade da pneumonia. Eles recomendam a aplicação dos imunizantes contra pneumococo, influenza e, ainda que em menor escala, a vacina contra COVID‑19 para adultos com comorbidades ou idade avançada.
Além da imunização, a adoção de hábitos de higiene respiratória – como o uso de máscara em ambientes fechados e a lavagem frequente das mãos – pode reduzir a transmissão de agentes patogênicos. A conscientização sobre os sinais de alerta, como febre persistente, tosse produtiva e dor torácica, também é fundamental para buscar atendimento médico precoce.
Para quem utiliza cigarros eletrônicos, a orientação é clara: interromper o uso ou, no mínimo, buscar dispositivos regulados e certificados. A falta de controle sobre a composição química desses aparelhos pode provocar lesões pulmonares agudas que se confundem com pneumonia tradicional, dificultando o diagnóstico e o tratamento adequado.
Por fim, as autoridades de saúde do estado de São Paulo estão sendo pressionadas a reforçar campanhas de vacinação, melhorar a vigilância epidemiológica e implementar políticas de controle mais rígidas sobre produtos de vaporização. O objetivo é reduzir o número de casos graves, evitar sobrecarga nos hospitais e garantir que a população esteja protegida contra futuras ondas de doença respiratória.








