Na manhã de 19 de fevereiro de 2026, estúdios de Salvador (BA) foram palco de gravações que homenageiam o poeta‑letrista José Carlos Capinan, que completa 85 anos. O projeto reúne nomes consagrados da MPB como João Bosco, Virgínia Rodrigues e Áurea Martins, que reinterpretam clássicos do compositor. O álbum, produzido por Alê Siqueira e apoiado por Guto Ruocco, reforça a importância de Capinan na história da música brasileira.
Um álbum que reúne gerações
O disco traz interpretações de artistas de diferentes idades e estilos, criando um diálogo entre o passado e o presente da MPB. Cada faixa foi gravada em estúdios espalhados pelo Brasil, permitindo que a energia de Capinan acompanhasse o processo criativo. A produção busca, sobretudo, oferecer ao letrista as flores em vida, reconhecendo sua influência nas letras que marcaram várias décadas.
João Bosco e Áurea Martins uniram forças para cantar “Papel machê”, sucessos de 1984 que nasceu da parceria entre Bosco e Capinan. A gravação, feita no Rio de Janeiro, traz um timbre contemporâneo sem perder a essência da obra original. Já Virgínia Rodrigues, baiana residente em Salvador, gravou “Yayá Massemba”, composição de 2003 escrita com Roberto Mendes, que nunca havia sido registrada em estúdio até então.
Além desses duetos, o álbum inclui versões de “Soy loco por ti, America”, “Movimento dos barcos” e “Ponteio”, músicas que fizeram parte do repertório de grandes nomes como Gil Berardo, Jards Macalé e Edu Lobo. Cada interpretação foi acompanhada de perto por Capinan, que ofereceu orientações sobre a métrica e a entonação, garantindo fidelidade ao espírito das letras.
A presença dos intérpretes nas gravações
Maria Bethânia, que descobriu Capinan ao gravar “Viramundo” em 1965, participou do projeto como mentora e vocalista em algumas faixas. Sua presença reforça o vínculo histórico entre a poetisa e a nova geração de cantores. No palco do tributo ao vivo, realizado em São Paulo em 2024, Bethânia dividiu o espaço com Renato Braz, Jards Macalé e o próprio Capinan, criando um momento único de celebração.
O processo de gravação foi marcado por momentos de improviso e troca de ideias. Em Salvador, Virgínia Rodrigues descreveu a experiência como “um reencontro íntimo com a palavra de Capinan, que ainda pulsa como se fosse ontem”. No Rio, João Bosco relatou que a colaboração com Áurea Martins trouxe “uma nova cor” à melodia de “Papel machê”.
Os produtores enfatizaram que a escolha dos estúdios – de Salvador a Rio – buscou refletir a trajetória geográfica de Capinan, que migrou para a capital baiana nos anos 1960 para estudar direito e acabou se envolvendo com o Centro Popular de Cultura (CPC). Essa conexão territorial ficou evidente nas sonoridades regionais que permeiam o álbum.
A trajetória de Capinan e suas parcerias
Nascido em 19 de fevereiro de 1941 em Arraial de Três Rios (BA) e registrado em Esplanada (BA), Capinan ingressou no CPC da UNE, onde cruzou caminhos com Caetano Veloso e Gil Berardo. Foi nesse ambiente de contestação cultural que o poeta começou a escrever letras que mesclavam crítica social e lirismo poético.
Em 1965, Capinan assinou sua primeira parceria importante ao compor a trilha sonora do filme “Viramundo”, dirigido por Geraldo Sarno. A canção‑título, interpretada por Maria Bethânia, trouxe à tona a influência da música nordestina na poética do letrista. Dois anos depois, o poeta colaborou com Caetano e Gil na criação de “Bonina”, “Clarice” e “Maria Maria”, músicas que se tornaram referência da Tropicália.
O sucesso de “Ponteio”, baião moderno que venceu o Festival de 1967, consolidou a aliança de Capinan com Edu Lobo. Juntos, eles produziram “Viola fora de moda” (1973) e “Repente” (1976), obras que ainda circulam nas rádios de música popular. A parceria com Gil Berardo foi ainda mais prolífica, resultando em clássicos como “Soy loco por ti, America” (1968) e “Movimento dos barcos” (1971).
- Edu Lobo – “Ponteio”, “Viola fora de moda”, “Repente”
- Gil Berardo – “Soy loco por ti, America”, “Movimento dos barcos”
- Jards Macalé – “Movimento dos barcos”
- Caetano Veloso – “Bonina”, “Clarice”, “Maria Maria”
Essas colaborações demonstram a versatilidade de Capinan, capaz de transitar entre o samba, o baião, o rock psicodélico e a música de protesto. Seu talento como letrista o tornou peça-chave nas composições que definiram a identidade sonora da década de 1960 e 1970 no Brasil.
O legado na MPB contemporânea
O álbum tributo não apenas celebra a trajetória de Capinan, mas também reforça seu papel como referência para compositores atuais. Artistas como Virgínia Rodrigues e Áurea Martins apontam o poeta como fonte de inspiração para a construção de narrativas poéticas que dialogam com questões sociais.
Além das gravações, o projeto inclui um documentário que acompanha Capinan nas sessões de estúdio, revelando seu processo criativo e sua visão sobre a evolução da música brasileira. O filme será exibido em festivais de cinema musical ao longo de 2027, ampliando o alcance da homenagem.
Especialistas em música destacam que a obra de Capinan permanece relevante porque combina linguagem popular com profundidade literária. Seu vocabulário, carregado de regionalismos e metáforas, oferece ao ouvinte uma experiência sensorial que vai além da melodia.
Com 85 anos, José Carlos Capinan continua ativo, escrevendo, revisando e acompanhando artistas que dão nova vida às suas canções. O tributo, portanto, funciona como um ponto de encontro entre gerações, celebrando a continuidade de uma tradição que ainda tem muito a oferecer ao cenário cultural brasileiro.








