Na manhã da terça‑feira (8) o governo canadense entrou em vigor com um pacote de tarifas que varia entre 15% e 50% sobre mercadorias provenientes dos Estados Unidos. As medidas foram ativadas após o fracasso de uma série de rodadas de negociação realizadas em agosto, entre o presidente Donald Trump e o primeiro‑ministro Mark Carney. O impacto imediato recai sobre produtos avaliados em cerca de 27,6 bilhões de dólares canadenses, o que equivale a aproximadamente US$ 20 bilhões.
Contexto da disputa comercial
A tensão entre Ottawa e Washington tem raízes que remontam ao início de 2025, quando a administração Trump anunciou tarifas sobre itens canadenses alegando combate ao tráfico de fentanil e necessidade de reduzir o déficit comercial americano. Em resposta, o Canadá adotou retaliações que incluíam alimentos, bebidas e eletrodomésticos, mas a escalada continuou ao longo do ano.
Em março, Washington aplicou uma tarifa de 25% sobre aço e alumínio importados, além de 10% sobre parte das importações de energia. Essa ação provocou a primeira grande lista de retaliações canadenses, que já incluía setores como vestuário e bens de consumo. A partir de então, ambas as partes buscaram acordos, mas as conversas foram interrompidas em junho devido a um impasse sobre o imposto canadense a serviços digitais.
Mesmo com tentativas de reconciliação – como a reunião entre Carney e Trump na Casa Branca em maio e o prazo de 30 dias estabelecido em junho – o clima permanecia de desconfiança. O Canadá acabou retirando a maioria das tarifas de retaliação em setembro, mantendo apenas as sobre aço, alumínio e automóveis, enquanto Washington elevou suas tarifas para 50% em alguns segmentos.
Detalhes das tarifas canadenses
As novas tarifas foram estruturadas para refletir proporcionalmente as barreiras impostas pelos EUA. Quando Washington impõe uma taxa sobre um produto canadense, Ottawa cobra uma alíquota equivalente sobre o correspondente americano. As medidas não afetam mercadorias que já estavam em trânsito antes da data de vigência e se aplicam exclusivamente a produtos de origem americana.
A seguir, a alíquota por categoria de produto:
- Aço: 25% a 50% dependendo da origem e do tipo.
- Alumínio: 25% a 50%.
- Laticínios: 15%.
- Eletrodomésticos: 20%.
- Equipamentos agrícolas: 25%.
- Papel e celulose: 15%.
- Plásticos: 20%.
- Componentes eletrônicos (computadores, servidores, monitores): 30% a 50%.
Além desses itens, o Canadá mantém tarifas de retaliação sobre automóveis americanos que não se enquadram nas regras do acordo USMCA (Estados‑Unidos, México e Canadá). Essas tarifas variam entre 15% e 30% e foram mantidas como forma de pressão.
Repercussões e respostas dos EUA
Os Estados Unidos ainda não anunciaram novas medidas de retaliação específicas contra as tarifas canadenses, mas o Departamento de Comércio sinalizou que avaliará possíveis respostas, especialmente nos setores de aço, alumínio e tecnologia. Analistas de mercado apontam que o aumento de custos pode ser repassado ao consumidor final, elevando os preços de produtos como eletrodomésticos e veículos.
Empresas americanas que dependem do mercado canadense têm buscado alternativas de produção em outros países para contornar as tarifas. Alguns fabricantes de componentes eletrônicos já anunciaram a realocação de linhas de montagem para o México, aproveitando as cláusulas mais favoráveis do USMCA.
Do lado canadense, produtores de aço e alumínio esperam que as tarifas incentivem a compra de produtos nacionais, fortalecendo a indústria local. No entanto, representantes do setor agrícola temido que a medida sobre equipamentos agrícolas possa reduzir a competitividade das exportações canadenses para outros mercados.
Cenário futuro e possíveis desdobramentos
Especialistas preveem que a disputa comercial entre Canadá e Estados Unidos pode se prolongar ao longo de 2026, sobretudo se não houver um acordo abrangente que inclua questões como o imposto sobre serviços digitais e as regras de origem do USMCA. A manutenção de tarifas sobre aço, alumínio e automóveis sugere que Ottawa pretende manter um ponto de pressão significativo.
Por outro lado, Washington tem buscado reforçar alianças comerciais na região Ásia‑Pacífico, o que pode reduzir sua dependência do mercado canadense. Caso os dois países encontrem um terreno comum, é provável que haja uma revisão das tarifas, possivelmente reduzindo-as em troca de concessões setoriais.
Enquanto isso, consumidores de ambos os lados da fronteira podem notar aumentos nos preços de itens cotidianos, como latas de leite, panelas de aço inox e aparelhos de televisão. Organizações de defesa do consumidor já alertam para a necessidade de monitorar o impacto inflacionário dessas tarifas.
Em síntese, a entrada em vigor das novas tarifas canadenses marca mais um capítulo da guerra comercial entre os vizinhos do norte, refletindo a complexidade das relações econômicas contemporâneas e a dificuldade de se alcançar acordos equilibrados em um cenário político volátil.








