Nas eleições de meio de mandato realizadas na terça‑feira (3) de novembro, eleitores de mais de trinta estados americanos decidiram sobre dezenas de propostas que podem mudar o panorama dos direitos das mulheres, das pessoas trans e das políticas de saúde reprodutiva. As votações, conhecidas como ballot measures, foram registradas em cerca de 150 consultas populares distribuídas por todo o país.
Restrição de atletas trans nos esportes
Em três estados – Arizona, Nebraska e Washington – as propostas que limitam a participação de meninas e mulheres trans em equipes femininas foram aprovadas. No Arizona, a medida ampliou a lei já existente, estendendo a proibição também às escolas particulares.
Em Nebraska, a restrição foi incorporada à Constituição estadual, tornando sua revogação mais complexa e exigindo alterações legislativas profundas. Já em Washington, a iniciativa exige a comprovação do “sexo biológico” por um profissional de saúde antes da admissão em equipes femininas.
- Defensores argumentam que a medida protege a igualdade de competição.
- Críticos alertam para riscos de invasão de privacidade e estigmatização.
O debate ganhou destaque nas campanhas republicanas, que buscaram mobilizar eleitores ao associar a questão trans à vitória de Donald Trump em 2024. Estratégias de comunicação apontaram que a retórica contra direitos trans teria contribuído para a base de apoio ao presidente.
Propostas sobre aborto e tratamentos de afirmação de gênero
No interior do Oeste, eleitores de Idaho e Missouri rejeitaram iniciativas que poderiam ampliar ou restabelecer restrições ao aborto. Em Idaho, a proposta que permitiria o aborto até a 24ª semana de gestação foi derrotada, mantendo a proibição quase total que vigora desde 2022.
No Missouri, duas votações distintas foram realizadas: uma que buscava restabelecer a proibição total do aborto – rejeitada – e outra que pretendia incluir na Constituição estadual a proibição de tratamentos de afirmação de gênero para menores, também rejeitada.
Essas decisões contrastam com o cenário de alguns estados onde medidas pró‑aborto avançam, evidenciando a profunda divisão regional sobre o tema.
Outras consultas populares e seus impactos
Além das questões de gênero e aborto, outros referendos abordaram regras eleitorais e segurança pública. Califórnia e Colorado votaram contra propostas que exigiriam a inclusão dos quatro últimos dígitos de documentos de identidade para o voto por correio, mantendo procedimentos já estabelecidos.
No Colorado, os primeiros resultados mostraram apoio a uma medida que proíbe cirurgias de transição de gênero em menores, embora o estado já possua legislações restritivas sobre o assunto.
Já no Missouri, a população rejeitou a inclusão de restrições adicionais ao voto, demonstrando ceticismo em relação a mudanças que poderiam dificultar a participação eleitoral.
- Regras eleitorais: proposta de identificação para voto por correio.
- Segurança pública: iniciativas sobre porte de armas e penas mais severas.
Essas consultas refletem uma tendência de que eleitores utilizem o voto direto para influenciar políticas locais, contornando, muitas vezes, o processo legislativo tradicional.
Implicações políticas e sociais dos resultados
Os resultados dos referendos revelam um cenário político altamente polarizado nos EUA, onde questões de identidade de gênero e direitos reprodutivos se tornaram bandeiras de campanha. A aprovação de restrições a atletas trans indica que a agenda conservadora tem conseguido mobilizar eleitores em estados-chave.
Por outro lado, a rejeição de medidas que limitariam o aborto em Idaho e Missouri demonstra que, mesmo em regiões tradicionalmente conservadoras, há resistência a políticas que eliminam completamente o acesso ao procedimento.
Analistas apontam que a estratégia de usar ballot measures permite que grupos de interesse alcancem mudanças rápidas, porém pode gerar instabilidade jurídica ao criar leis que podem ser revertidas em futuros pleitos.
Além disso, a inserção de temas sociais nas eleições de meio de mandato pode influenciar a composição do Congresso, já que candidatos alinhados às posições dos referendos tendem a receber maior apoio nas campanhas subsequentes.
Em resumo, as consultas populares de 2024 reforçam a importância do voto direto como ferramenta de expressão cidadã, ao mesmo tempo em que evidenciam a necessidade de um debate mais aprofundado sobre direitos individuais, igualdade de gênero e autonomia corporal nos Estados Unidos.








