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Rede de propaganda pró-Rússia usa imagens de mulheres ucranianas para atrair cliques no Telegram

Keti Leshkasheli, médica georgiana que serviu como paramédica na Legião Internacional da Ucrânia, descobriu em 2025 que sua foto estava sendo utilizada em anúncios enganosos no Telegram para direcionar usuários a canais pró-Rússia. O incidente ocorreu logo após seu retorno da linha de frente, quando seu celular começou a receber mensagens de familiares preocupados com supostos vídeos de sua captura e abuso sexual.

Como a campanha se estruturou no Telegram

De acordo com o Serviço Mundial da BBC, a rede de propaganda criou mais de 6,5 mil anúncios que alegavam violência sexual contra mulheres ucranianas, usando imagens reais de militares e civis. Cada publicação seguia um padrão: foto da suposta vítima, texto sensacionalista que descrevia sequestro e estupro, e um link que prometia “provas em vídeo”.

Esses anúncios eram distribuídos por cerca de 1,7 mil canais de pequeno porte, que abordavam temas variados como conteúdo adulto, finanças, memes e propaganda bélica. O objetivo principal era gerar curiosidade e, consequentemente, cliques que levassem a grupos privados onde o conteúdo era totalmente diferente do prometido.

  • Mais de 20 mulheres identificadas, muitas delas ex‑integrantes das Forças Armadas ucranianas.
  • Acúmulo de mais de 65 milhões de visualizações em toda a rede de anúncios.
  • Uso de linguagem ofensiva de gênero e étnica para intensificar o choque.

Ao acessar os links, os usuários eram redirecionados para canais que continham propaganda pró‑Rússia, mensagens de apoio ao conflito e, em alguns casos, material de entretenimento adulto. Nenhum dos vídeos alegados existia.

Impacto da desinformação nas plataformas digitais

O Telegram, aplicativo de mensagens mais popular na Rússia, também se tornou uma das principais fontes de notícias para a população ucraniana em 2025, segundo pesquisa nacional. Essa dualidade facilitou a disseminação de conteúdo manipulador, já que os usuários confiam na plataforma para receber informações rápidas e, muitas vezes, não verificam a origem dos links.

Além do Telegram, a mesma estratégia se espalhou para outras redes sociais. No TikTok, YouTube e VKontakte, vídeos curtos prometiam revelar “as imagens reais das prisioneiras ucranianas” enquanto promoviam os mesmos canais privados do Telegram. Essa amplificação cruzada aumentou ainda mais o alcance da campanha.

Especialistas em desinformação, como a pesquisadora Valentyna Shapovalova, explicam que a tática visa transformar a violência sexual em um produto de entretenimento, monetizando a atenção dos usuários através de cliques, visualizações e, eventualmente, doações ou vendas de conteúdo.

Reações das vítimas e medidas de combate

Para as mulheres cujas imagens foram usadas sem consentimento, a situação gerou profundo sofrimento emocional. Keti Leshkasheli relatou que, ao reconhecer a foto em um dos anúncios, sentiu raiva e impotência, pois não havia meios imediatos de remover o conteúdo ou responsabilizar os responsáveis.

Organizações de direitos humanos e plataformas digitais têm buscado soluções. A BBC colaborou com o Telegram para identificar e fechar alguns dos canais envolvidos, embora a natureza descentralizada da rede dificulte a erradicação completa. Além disso, campanhas de conscientização foram lançadas para alertar os usuários sobre a existência de anúncios falsos que prometem conteúdo sensacionalista.

Autoridades ucranianas também iniciaram investigações para rastrear os responsáveis por essas campanhas, considerando que a propaganda de guerra e a difamação de civis podem constituir crimes sob a lei internacional.

Enquanto isso, especialistas recomendam que os usuários adotem práticas de verificação, como checar a fonte original da imagem, desconfiar de promessas de “vídeos exclusivos” e evitar clicar em links suspeitos. A educação digital torna‑se, assim, uma ferramenta essencial para combater a desinformação baseada em gênero.

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