Um estudo recente alerta que as ondas de calor intensificadas pelo fenômeno El Niño, que se intensificam a partir de julho de 2024, estão agravando sintomas de várias doenças neurológicas no Brasil. A pesquisa, conduzida por neurologistas de São Paulo e do Rio Grande do Sul, aponta um aumento significativo de internações e crises em pacientes vulneráveis. O alerta foi divulgado durante uma coletiva de imprensa realizada no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, na última segunda‑feira.
Impactos do calor em pacientes com Parkinson
Para quem convive com a doença de Parkinson, a elevação da temperatura ambiente representa mais do que um simples desconforto. O calor extremo funciona como uma sobrecarga cardiovascular, provocando queda da pressão arterial e aceleração dos batimentos cardíacos. Quando o organismo não consegue fazer os microajustes automáticos que o sistema nervoso central normalmente realiza, surgem tonturas, desmaios e piora acentuada do desequilíbrio.
O neurologista Maurício Hoshino, do Hospital Santa Catarina, explicou que o controle fino da pressão arterial já é comprometido pela própria patologia. Em dias de temperatura acima de 35 °C, os pacientes podem experimentar quedas bruscas de pressão que desencadeiam crises de hipotensão. Esses episódios aumentam o risco de quedas, fraturas e hospitalizações inesperadas.
Além dos efeitos hemodinâmicos, o calor interfere na regulação da temperatura corporal, levando a hipertermia. A hipertermia pode intensificar a rigidez muscular e a bradicinesia, dois dos principais sintomas do Parkinson. Como resultado, a mobilidade do paciente diminui ainda mais, exigindo apoio adicional de cuidadores e equipamentos de assistência.
Efeitos na esclerose múltipla e nas demências
Na esclerose múltipla, as lesões inflamatórias deixam cicatrizes neurais que permanecem vulneráveis a estresses externos. Quando a temperatura sobe, essas cicatrizes sofrem uma sobrecarga temporária, fazendo com que sintomas previamente controlados retornem. Um paciente que havia recuperado a força em uma perna pode sentir novamente fraqueza ou formigamento na mesma região.
O neurologista Roger Santana de Araújo, da Clínica EVCiti, descreveu que a desidratação provocada pelo calor acelera o declínio cognitivo em idosos com Alzheimer e outras demências. A falta de água reduz o volume plasmático, comprometendo a perfusão cerebral e intensificando episódios de confusão mental. Muitos pacientes idosos têm dificuldade para comunicar mal‑estar, o que os deixa ainda mais expostos.
Além da desidratação, o calor afeta o ciclo de sono, um fator crítico para a memória e a consolidação de aprendizados. A privação de sono, comum em ambientes quentes sem ar‑condicionado adequado, eleva a probabilidade de crises de confusão e piora o comportamento agitado em pacientes com demência.
- Manter a hidratação: consumir pelo menos 2 litros de água por dia.
- Controlar a temperatura do ambiente: usar ventiladores ou ar‑condicionado quando a temperatura ultrapassar 28 °C.
- Evitar exposição ao sol entre 10 h e 16 h.
- Monitorar sinais de hipotensão ou desidratação em pacientes vulneráveis.
- Garantir rotina de sono regular, com ambiente fresco e escuro.
Essas medidas simples podem reduzir a carga sobre o sistema nervoso e evitar recaídas inesperadas.
Consequências para epilepsia, enxaqueca e saúde pública
O calor intenso também representa um gatilho importante para crises epilépticas. A falta de sono, combinada com a desidratação, aumenta a excitabilidade neuronal, favorecendo a ocorrência de convulsões em pacientes predispostos. Hoshino relata que muitos pacientes relatam piora nas crises durante ondas de calor que se prolongam por semanas.
Para quem sofre de enxaqueca, o ambiente quente e úmido pode ser o estopim de dores intensas. O cérebro de indivíduos com enxaqueca é hiper‑responsivo a estímulos externos como luz forte, ruído e variações térmicas. Quando o ar‑condicionado não funciona adequadamente, a combinação de calor e barulho de ventiladores pode desencadear episódios dolorosos.
Do ponto de vista da saúde pública, o aumento de internações durante os meses mais quentes gera pressão sobre hospitais e serviços de emergência. Araújo destaca que os dados da NOAA indicam que o El Niño está em fase “muito forte” e tende a evoluir para “super El Niño” ainda neste trimestre, o que pode prolongar o período de risco.
As autoridades sanitárias precisam, portanto, implementar planos de contingência que incluam unidades de atenção rápida, equipes de visita domiciliar e campanhas de conscientização sobre hidratação e cuidados com a temperatura. A prevenção começa com informação clara para pacientes, familiares e profissionais de saúde.








