Na última semana de campanha, duas importantes institutos de pesquisa – Quaest e Datafolha – viram seus resultados de intenção de voto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se tornarem foco de críticas nas redes sociais. As divulgações ocorreram nos dias 21 e 22 de outubro de 2026, respectivamente, e levantaram dúvidas sobre metodologias e interpretações dos números.
Polêmica na Quaest: aumento inesperado de eleitores indecisos
A pesquisa da Quaest, lançada na quarta‑feira 21 de outubro, mostrou que o percentual de eleitores que ainda não definiram sua escolha saltou de 7% para 14% em apenas sete dias. Esse duplo aumento ocorreu na reta final da disputa, quando a tendência esperada seria a consolidação de preferências.
O salto foi particularmente acentuado entre alguns grupos demográficos. Entre as mulheres, a taxa de indecisos passou de 8% para 17%, enquanto entre os eleitores autodenominados independentes o número subiu de 13% para 31%.
Segundo o diretor da Quaest, o cientista político Felipe Nunes, o fenômeno reflete um “desencanto” geral com os dois candidatos, alimentado por campanhas negativas, ataques pessoais e o debate televisivo na Band.
Ele explicou ainda que a pesquisa inclui eleitores que não compareceram ao primeiro turno ou que votaram em branco ou nulo, categoria que a Quaest chama de alienação eleitoral. Nessa parcela, Lula teria 40% de intenção de voto contra 36% de Flávio, o que contribui para o empate quase numérico observado.
Para ilustrar os fatores apontados por Nunes, segue a lista dos principais motivos que, segundo ele, impulsionaram a indecisão:
- Campanha negativa intensificada nas últimas semanas;
- Debate televisivo que não trouxe novas propostas claras;
- Descontentamento de eleitores que se sentiram “alienados” no primeiro turno;
- Influência de lideranças locais que ainda não definiram apoio.
O diretor alertou que, se a alienação eleitoral permanecer no segundo turno, a metodologia likely voter – que estima a probabilidade de comparecimento às urnas – pode favorecer Flávio, pois ele teria maior potencial de captar eleitores que ainda não decidiram.
Datafolha e o debate sobre arredondamento de resultados
Um dia depois, o Datafolha divulgou sua pesquisa, que também gerou controvérsia. Enquanto a coleta inicial apontava 47% de intenção de voto para Flávio e 46% para Lula, o relatório final, que considerou apenas votos válidos, arredondou os números para 50% a 50%, apresentando um empate exato.
Analistas apontam que o arredondamento pode ter sido feito para simplificar a comunicação, mas a prática despertou suspeitas de manipulação, sobretudo entre apoiadores de Flávio, que questionaram a transparência do instituto.
O Datafolha defendeu que o ajuste segue normas técnicas de apresentação de resultados, mas reconheceu que a margem de erro – de dois pontos percentuais – pode tornar o empate aparente.
Além do arredondamento, a pesquisa levantou dúvidas sobre a amostra utilizada, que incluiu eleitores de regiões com histórico de baixa comparecência nas urnas. Essa escolha pode ter inflado o percentual de eleitores indecisos e, consequentemente, o grau de proximidade entre os candidatos.
Impactos nas estratégias de campanha
Ambas as pesquisas, apesar das controvérsias, têm influência direta nas estratégias de campanha. Para o candidato Lula, o aumento da alienação eleitoral indica a necessidade de mobilizar eleitores que abstiveram ou votaram em branco, reforçando a mensagem de participação cidadã.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, vê no empate técnico uma oportunidade para consolidar apoio entre os eleitores indecisos, especialmente nas categorias femininas e independentes, que mostraram maior volatilidade nas últimas semanas.
Os analistas de mídia recomendam que ambos os candidatos invistam em comunicação segmentada, usando dados demográficos para direcionar mensagens que revertam o desencanto e reduzam a taxa de indecisão.
Além disso, a possibilidade de adoção da metodologia likely voter na próxima divulgação da Quaest pode mudar o cenário. Caso os eleitores que não votaram no primeiro turno retornem em massa, a projeção pode favorecer Flávio, já que ele tem maior potencial de captar esse público.
Para o Lula, a estratégia será enfatizar a importância de votar nas urnas e apresentar propostas que reconquistem eleitores desiludidos, enquanto Flávio deve reforçar sua imagem de alternativa à política tradicional, buscando atrair os indecisos que ainda não se identificam com nenhum dos candidatos.
Em resumo, as controvérsias envolvendo a Quaest e o Datafolha revelam como metodologias de pesquisa podem influenciar a percepção pública e, consequentemente, o comportamento eleitoral. O debate sobre indecisos, alienação eleitoral e arredondamento de resultados mostra que, em períodos de alta tensão política, a transparência dos institutos de pesquisa se torna ainda mais crucial.
Os próximos dias trarão novas divulgações, e tanto os candidatos quanto os analistas ficarão atentos aos ajustes metodológicos que podem mudar a dinâmica da corrida presidencial.








