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Os bastidores da criação da urna eletrônica: de telefones fixos a disquetes

Em 1998, na pequena cidade de Acaraú, no Ceará, eleitores foram convidados a experimentar pela primeira vez a urna eletrônica, um equipamento que prometia transformar a votação no Brasil. O experimento ocorreu em uma casa de taipa, onde um cartaz anunciava o convite “vote em mim” ao lado do teclado numérico da máquina. Essa iniciativa marcou o início da expansão da tecnologia que, dois anos depois, já estaria presente em todo o território nacional.

O desafio de adaptar a tecnologia ao Brasil continental

A comissão responsável pelo desenvolvimento da urna eletrônica era composta por cinco especialistas, conhecidos informalmente como “os ninjas”. Três deles tinham ascendência japonesa, o que conferiu ao grupo um apelido carinhoso e reforçou a ideia de agilidade e precisão nas tarefas. O engenheiro Mauro Hisao Hashioka, do INPE, liderava as visitas a municípios com alto índice de analfabetismo para observar a interação dos eleitores com a nova máquina.

O grupo incluía ainda técnicos do Centro Técnico Aeroespacial e do próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O último integrante a se juntar ao time foi o matemático Giuseppe Janino, que, aos 35 anos, ocupava a posição de “quinto ninja” após ser aprovado em primeiro lugar em concurso público. Todos trabalhavam em uma sala na sede do TSE, em Brasília, sob um prazo apertado para entregar uma solução robusta.

Inspirações do cotidiano: o telefone fixo como modelo

Para garantir que a urna fosse intuitiva, os criadores buscaram inspiração em um objeto familiar aos brasileiros da década de 1990: o telefone fixo. A disposição dos números no teclado da urna seguiu exatamente a mesma lógica do aparelho, facilitando a adaptação dos eleitores que já estavam acostumados a digitar números em telefones residenciais.

Essa escolha estratégica reduziu a curva de aprendizado e evitou a necessidade de treinamentos extensivos, especialmente em regiões onde o acesso à educação formal era limitado. Assim, a familiaridade com o telefone se converteu em um aliado na democratização do voto eletrônico.

Arquitetura tecnológica: disquetes e criptografia

A primeira geração da urna eletrônica utilizava duas unidades de disquete, tecnologia típica dos anos 1990. Um disquete continha o sistema operacional e os programas de votação, enquanto o outro armazenava os resultados para posterior transmissão. Mesmo antes da transmissão, os dados já eram protegidos por criptografia avançada para impedir fraudes.

Os “ninjas” decidiram acrescentar uma camada extra de segurança: o embaralhamento dos dados no disquete. Essa técnica alterava a organização da informação, de modo que, ao ser inserido em outro computador, o disquete não fosse reconhecido normalmente, dificultando ainda mais qualquer tentativa de manipulação externa.

  • Uso de dois disquetes: um para o sistema e outro para os resultados;
  • Criptografia dos dados antes da transmissão;
  • Embaralhamento dos arquivos para proteção adicional.

Impacto nas eleições brasileiras e legado

A decisão do TSE em 1996 de colocar em prática a ideia de uma máquina de votar foi motivada, em parte, por escândalos de fraude nas cédulas de papel. Na eleição de 1994, parte dos resultados no Rio de Janeiro foi anulada devido a irregularidades. A urna eletrônica surgiu como resposta tecnológica para restaurar a confiança da população no processo democrático.

Após o piloto em Acaraú, a expansão da urna eletrônica ocorreu rapidamente, atingindo todas as seções eleitorais do país em poucos anos. O sucesso da tecnologia também inspirou melhorias contínuas, como a substituição dos disquetes por dispositivos de memória flash e a implementação de auditorias digitais.

Hoje, a urna eletrônica é vista como um símbolo de modernização e transparência nas eleições brasileiras, embora continue sendo objeto de debates e aprimoramentos. A história dos “ninjas” e sua criatividade ao adaptar recursos como o telefone fixo e os disquetes permanece como um exemplo de inovação sob pressão.

Além de garantir a integridade do voto, o projeto também fomentou a capacitação de profissionais de ciência e tecnologia no país, gerando um legado que ultrapassa o âmbito eleitoral. A experiência acumulada serviu de base para outros projetos de infraestrutura digital desenvolvidos pelo INPE e pelo TSE.

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