Um estudo divulgado em 10 de setembro de 2026, durante o Congresso Internacional de Terapia Intensiva em Belfast, na Irlanda do Norte, mostrou que a telessaúde pode reduzir a mortalidade de pacientes graves atendidos pelo SUS. A pesquisa, publicada simultaneamente no Journal of the American Medical Association (JAMA), analisou a eficácia de um modelo de reabilitação remoto aplicado em hospitais públicos brasileiros.
Estrutura da intervenção de telessaúde
O programa foi coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pelo Hospital Moinhos de Vento, com apoio do Proadi‑SUS. Foram incluídos 1.916 pacientes internados em 20 hospitais públicos de diferentes regiões do país entre 2024 e 2025.
A estratégia foi dividida em três etapas distintas:
- Suporte remoto às equipes de UTI: consultoria online para acelerar a retirada da ventilação mecânica.
- Avaliação multidisciplinar na enfermaria: fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais realizavam avaliações detalhadas.
- Reabilitação por teleatendimento pós‑alta: programa personalizado de dois meses, com sessões virtuais e monitoramento diário.
Cada fase foi pensada para garantir continuidade de cuidado, mesmo após a alta hospitalar, evitando lacunas que costumam comprometer a recuperação.
Impactos na mortalidade e na qualidade de vida
Comparado ao cuidado habitual, a intervenção reduziu a mortalidade em 7,6 pontos percentuais nos primeiros 90 dias, passando de 78,3% para 71,8% entre pacientes com insuficiência respiratória aguda submetidos à ventilação mecânica.
Além da redução de óbitos, os pacientes acompanhados apresentaram um score médio de qualidade de vida 33% superior ao grupo controle (0,16 contra 0,12). O indicador considerou mobilidade, autonomia, dor, saúde mental e capacidade de realizar atividades cotidianas.
O tempo médio de ventilação mecânica também diminuiu significativamente, de 15,5 para 9,9 dias, refletindo um ganho de quase seis dias de suporte respiratório reduzido.
Nos três meses seguintes à internação, os pacientes do grupo de telessaúde permaneceram, em média, 4,9 dias a mais vivos e fora do hospital, indicando uma recuperação mais rápida e menos complicações.
Implicações econômicas e futuro da reabilitação pós‑UTI
Embora a análise econômica completa ainda esteja em fase, os pesquisadores acreditam que a estratégia pode gerar economia para o SUS. Grande parte da reabilitação foi realizada de forma remota, permitindo que uma equipe centralizada atendesse pacientes de 20 hospitais sem necessidade de contratações adicionais nos centros participantes.
O modelo também combate a síndrome pós‑UTI, condição que afeta muitos sobreviventes com limitações físicas, cognitivas e emocionais de longa duração. Ao reconhecer que a recuperação não termina na alta da terapia intensiva, o programa oferece suporte contínuo que pode prevenir o desenvolvimento de sequelas crônicas.
Para o médico Adriano Pereira, coordenador da Tele‑UTI do Einstein, “a doença de UTI costuma ser vista como um evento agudo, mas para muitos pacientes ela se comporta como uma condição crônica”. Essa visão orientou a criação de um acompanhamento que vai além da alta hospitalar, abordando aspectos como mobilidade, saúde mental e reintegração ao trabalho.
Os resultados sugerem que intervenções baseadas em telessaúde podem se tornar padrão de cuidado em unidades de terapia intensiva, especialmente em sistemas de saúde com recursos limitados como o SUS. A escalabilidade do modelo permite que hospitais de diferentes portes adotem a prática sem grandes investimentos em infraestrutura.
Os autores do estudo ressaltam que, embora a mortalidade ainda seja alta em pacientes críticos, a combinação de suporte remoto, avaliação multidisciplinar e reabilitação continuada representa um avanço significativo na medicina intensiva. Eles recomendam novas pesquisas para validar os achados em contextos internacionais e para explorar a relação entre redução de custos e melhoria de resultados clínicos.








