Em entrevista concedida ao programa Redefining Grief: Building Resilience Through Loss, o Príncipe Harry revelou que, após sua segunda missão militar no Afeganistão, em 2013, percebeu sinais claros de sofrimento mental. O relato, feito na presença da psicóloga Mary‑Frances O’Connor, descreve como pequenos estímulos, como o aperto de uma gola, desencadeavam a sensação de sufocamento.
O gatilho da missão no Afeganistão
Harry explicou que a experiência no teatro de guerra não foi a causa direta do transtorno de estresse pós‑traumático (TEPT), mas funcionou como um gatilho que trouxe à tona questões psicológicas já latentes. Ele descreveu episódios de pânico que surgiam ao simplesmente entrar no carro a caminho do trabalho, indicando um nível de ansiedade que ultrapassava o cotidiano.
Segundo o príncipe, a pressão de ser piloto em uma zona de conflito, combinada com a responsabilidade de representar a família real, criou um ambiente propício ao desenvolvimento de sintomas de TEPT. Ele enfatizou que o medo não era apenas físico, mas também emocional, gerado por lembranças de situações de risco que ainda o assombravam.
Para ilustrar a intensidade do gatilho, Harry contou que, ao vestir uma camisa social simples, a sensação de a gola apertar provocava a percepção de que seu peito estava sendo comprimido. Essa reação fisiológica, embora aparentemente banal, era um sinal claro de que seu corpo ainda respondia ao trauma vivido em combate.
- Reação física ao stress: aumento da frequência cardíaca;
- Sensação de asfixia ao usar roupas apertadas;
- Ansiedade ao realizar tarefas rotineiras, como dirigir.
Ele ressaltou que reconhecer esses sinais foi fundamental para buscar ajuda profissional. A decisão de conversar abertamente sobre seu estado mental marcou um ponto de virada na sua trajetória de autocuidado.
O peso da perda de Diana e o silêncio emocional
Ao longo da conversa, Harry abordou a influência da morte de sua mãe, a Princesa Diana, quando ele tinha apenas 12 anos. O luto precoce, segundo ele, o fez fechar-se emocionalmente, criando um mecanismo de defesa que mascarava a dor profunda.
Durante quase duas décadas, o príncipe admitiu que respondia “Estou bem” a perguntas sobre seu bem‑estar, sem revelar o que realmente sentia. Esse entorpecimento foi descrito como um desligamento emocional que impediu o processamento saudável da perda.
Ele explicou que a falta de um espaço seguro para falar sobre a morte de Diana contribuiu para a acumulação de emoções não resolvidas, que mais tarde se manifestaram como ansiedade e depressão. O silêncio interno acabou por alimentar um ciclo de negação e autossabotagem.
Ao refletir sobre esse período, Harry destacou a importância de reconhecer que o luto não tem prazo determinado e que buscar apoio pode prevenir o agravamento de transtornos mentais. Ele enfatizou que a vulnerabilidade, ao contrário do que se pensa, pode ser um ato de coragem.
A transição para o Canadá e a luta contra a depressão
Em 2020, após a decisão de renunciar aos deveres reais, Harry e sua esposa, Meghan Markle, mudaram-se para o Canadá. O príncipe descreveu essa mudança como um período de grande desgaste emocional, marcado por sentimentos de inutilidade e isolamento.
Ele relatou que, nos primeiros dias na nova residência, entrou em um estado depressivo que durou cerca de duas semanas, durante as quais sentia que não conseguia funcionar sem a adrenalina que antes o mantinha ativo. Essa fase foi caracterizada por falta de motivação e pensamentos recorrentes de inadequação.
Para lidar com a depressão, Harry adotou uma série de estratégias, incluindo terapia regular, prática de meditação e a criação de rotinas que favoreciam o bem‑estar físico e mental. Ele também enfatizou o papel fundamental do apoio da família e dos amigos próximos.
- Consulta semanal com psicólogo especializado em trauma;
- Exercícios de respiração e mindfulness diariamente;
- Atividades ao ar livre e contato com a natureza;
- Participação em grupos de apoio a veteranos.
O príncipe destacou que a mudança de ambiente, embora desafiadora, ofereceu a oportunidade de reconstruir sua identidade longe das pressões da vida pública britânica. Ele acredita que a experiência no Canadá foi crucial para desenvolver resiliência e encontrar um novo propósito.
Hoje, Harry compartilha sua história publicamente para desestigmatizar questões de saúde mental, especialmente entre veteranos e membros da família real. Ele espera que seu relato inspire outras pessoas a buscar ajuda e a reconhecer que o caminho para a recuperação é possível, mesmo após episódios de trauma intenso.
Em suma, a jornada do Príncipe Harry ilustra como eventos externos, como missões militares, podem acionar feridas internas não tratadas, mas também como a busca por apoio profissional e o apoio de entes queridos podem transformar o sofrimento em crescimento pessoal.








