O Brasil registra, em agosto de 2024, uma dívida bruta de R$ 11,05 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB, segundo dados oficiais. Esse cenário coloca em foco a necessidade de ajustes nas contas públicas e define o principal desafio para o governo que assumir a presidência nas próximas eleições. A pergunta central dos economistas consultados pelo g1 foi: qual será o maior obstáculo econômico para a nova gestão?
O panorama da dívida pública
A dívida total do setor público – que inclui União, Previdência, estados e municípios – atingiu o nível mais alto desde a pandemia de Covid‑19, em abril de 2021. Esse aumento decorre de déficits primários recorrentes, ou seja, da diferença negativa entre receitas e despesas antes do pagamento de juros. Quando o resultado primário permanece negativo por longos períodos, a dívida cresce de forma exponencial.
Os números atuais mostram que, a cada R$ 1 de PIB, quase R$ 0,83 correspondem a compromissos de dívida. Essa proporção gera pressão sobre a política de juros, eleva a inflação e limita a capacidade do Estado de investir em infraestrutura ou em políticas sociais.
Além do montante absoluto, a composição da dívida é relevante. Grande parte do endividamento está concentrada em títulos de médio e longo prazo, o que significa que o governo terá que honrar pagamentos de juros e amortizações por décadas. Essa estrutura cria um círculo vicioso: mais juros reduzem a margem de manobra fiscal, forçando novos déficits primários.
A urgência do ajuste fiscal
Para a maioria dos economistas entrevistados, o ponto de partida de qualquer estratégia de retomada econômica é o equilíbrio das contas públicas. Maílson da Nóbrega, ex‑ministro da Fazenda, enfatiza que o presidente eleito precisará apresentar rapidamente medidas concretas de ajuste, indicando quais despesas serão cortadas e quais receitas serão ampliadas.
O desafio, porém, não se resume a “cortar gastos”. As despesas obrigatórias – salários, aposentadorias e benefícios previdenciários – representam mais de 90% do gasto total. Metade desse volume está vinculada ao salário‑mínimo, que tem forte componente político e social.
- Revisão de benefícios fiscais que oneram a arrecadação;
- Reforma administrativa para reduzir a folha de pagamento do funcionalismo;
- Reestruturação da Previdência para adequar benefícios ao envelhecimento da população;
- Ampliação da base tributária, com foco em setores de alta rentabilidade.
Essas propostas exigem amplo apoio social, legislativo e judicial. Em um país marcado por desigualdades regionais e por forte dependência de políticas de transferência de renda, a construção de consenso é um obstáculo tão grande quanto a própria medida de corte.
Desafios além da conta pública
Os economistas apontam que, embora a questão fiscal seja central, outros fatores podem comprometer ou impulsionar a trajetória econômica nos próximos anos. O endividamento de famílias e empresas, por exemplo, tem aumentado devido à alta dos juros e à instabilidade de renda.
Além disso, eventos climáticos extremos – secas, enchentes e incêndios – elevam os custos de resposta do Estado e reduzem a produtividade agrícola. O envelhecimento demográfico também pressiona o sistema previdenciário, exigindo recursos que competem com outras prioridades.
Um ponto emergente nas análises é o impacto da inteligência artificial e da automação. Enquanto essas tecnologias podem gerar ganhos de produtividade, também demandam investimentos públicos em capacitação e regulação, o que implica novos gastos.
Por fim, a política externa entra como variável crítica. As relações com os Estados Unidos, a China e outros parceiros comerciais influenciam o fluxo de investimentos, o acesso a tecnologias estratégicas e a negociação de commodities. Uma postura diplomática equilibrada será essencial para evitar choques externos que possam agravar a situação fiscal.
Caminhos possíveis e estratégias de longo prazo
Para alcançar um cenário sustentável até 2030, os especialistas recomendam um conjunto integrado de políticas. Primeiro, a geração de superávits primários – onde receitas superam despesas antes dos juros – deve ser meta clara. Essa disciplina fiscal cria espaço para a redução gradual da dívida em relação ao PIB.
Segundo, a reforma tributária precisa avançar, simplificando o sistema e ampliando a arrecadação sem sobrecarregar os setores produtivos. A adoção de alíquotas mais progressivas e a eliminação de benefícios fiscais ineficazes são medidas frequentemente citadas.
Terceiro, o investimento em infraestrutura deve ser priorizado, pois gera efeito multiplicador na economia, aumenta a competitividade e cria empregos. Contudo, esses projetos precisam ser financiados de forma responsável, evitando o aumento descontrolado da dívida.
Por fim, a construção de um consenso político amplo é imprescindível. Sem apoio no Congresso e na sociedade civil, reformas estruturais tendem a ser paralisadas ou revertidas, gerando incerteza nos mercados.
Em resumo, o próximo governo enfrentará um conjunto complexo de desafios interligados: equilibrar as contas públicas, conter o endividamento de famílias e empresas, adaptar-se às mudanças climáticas e tecnológicas, e manter relações externas estáveis. A capacidade de articular medidas fiscais rigorosas com políticas de crescimento será o critério decisivo para evitar uma recessão profunda e garantir a sustentabilidade da dívida pública.








