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Insegurança alimentar eleva risco de obesidade em mulheres no Rio de Janeiro, revela estudo

Um estudo divulgado em março de 2024, realizado no município do Rio de Janeiro, apontou que a obesidade entre mulheres chefes de família é quase três vezes maior quando há insegurança alimentar. A pesquisa foi conduzida pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional (GISAN), vinculado ao Instituto de Nutrição Josué de Castro da UFRJ. Os resultados reforçam a relação entre privação de alimentos e problemas de saúde nas casas lideradas por mulheres.

Contexto e metodologia da pesquisa

O levantamento fez parte do Inquérito sobre a Insegurança Alimentar no Município do Rio de Janeiro, conhecido como Mapa da Fome da Cidade. Foram incluídos apenas chefes de família adultos, entre 20 e 59 anos, excluindo gestantes, totalizando uma amostra de 1.026 indivíduos. As entrevistas presenciais foram realizadas por enumeradores treinados, que questionaram a pessoa responsável pela compra e preparação das refeições.

Para avaliar a situação alimentar dos domicílios, os pesquisadores utilizaram a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), composta por 14 perguntas dicotômicas validadas desde 2004. A escala permite classificar os lares em segurança alimentar ou em níveis de insegurança leve, moderada e grave. Além disso, foram coletados dados de peso, estatura e características sociodemográficas para determinar o estado nutricional dos entrevistados.

Os indicadores de sobrepeso (IMC entre 25,0 e 29,9) e obesidade (IMC igual ou superior a 30,0) foram calculados a partir das medidas antropométricas. Os autores aplicaram ajustes estatísticos para controlar variáveis como idade, escolaridade e renda familiar, garantindo que as associações encontradas fossem robustas.

Principais achados para as mulheres

Os resultados mostraram que a prevalência de sobrepeso (38,7%) e obesidade (32,3%) foi significativamente maior entre mulheres cujas famílias viviam em condições de insegurança alimentar mais severa. Após os ajustes, a probabilidade de obesidade feminina foi quase três vezes maior entre aquelas expostas a qualquer nível de insegurança alimentar, comparado às que viviam em domicílios seguros.

O sobrepeso também apresentou forte associação: mulheres em lares com insegurança grave tiveram 76% mais chances de estar acima do peso ideal em relação às que estavam em segurança alimentar. Esses números revelam um padrão de vulnerabilidade que não se observa da mesma forma entre os homens.

Entre os homens da mesma amostra, a relação entre insegurança alimentar e obesidade não atingiu significância estatística, indicando que o efeito da privação de alimentos sobre o peso corporal é mais pronunciado nas mulheres.

Desigualdades de gênero e fatores estruturais

A disparidade pode ser explicada por fatores estruturais que afetam desproporcionalmente as chefes de família. Entre eles estão:

  • Limitações no acesso a recursos produtivos, como crédito agrícola ou oportunidades de emprego formal;
  • Sobre carga de responsabilidades domésticas, de cuidado infantil e de idosos;
  • Maior probabilidade de escolher alimentos menos nutritivos por questões de preço e disponibilidade.

Essas condições criam um ciclo onde a insegurança alimentar favorece o consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em calorias e pobres em nutrientes, contribuindo para o ganho de peso.

Além disso, o cenário do Rio de Janeiro, apesar de ser um dos estados com maior PIB do país, apresenta profundas desigualdades internas. Grandes centros urbanos concentram renda, mas também abrigam favelas e bairros vulneráveis onde a fome e a insegurança alimentar são mais prevalentes.

Implicações e perspectivas para políticas públicas

Segundo o IBGE, em 2023, 21,6 milhões de brasileiros viviam em algum grau de insegurança alimentar, com 3,2 milhões em situação de fome. Embora haja uma leve melhora em relação a anos anteriores, os números ainda apontam para uma crise silenciosa que afeta principalmente mulheres chefes de família.

O estudo recomenda a implementação de políticas que integrem segurança alimentar e igualdade de gênero. Entre as propostas estão programas de apoio à renda feminina, ampliação de redes de abastecimento de alimentos saudáveis e campanhas de educação nutricional direcionadas às responsáveis pelas compras domésticas.

Investimentos em infraestrutura urbana, como mercados comunitários e hortas urbanas, podem reduzir a dependência de alimentos industrializados e melhorar a qualidade da dieta nas áreas mais vulneráveis. A ação coordenada entre governos municipais, estaduais e federais é essencial para romper o ciclo de insegurança e obesidade.

Em síntese, a pesquisa evidencia que a insegurança alimentar não só compromete a quantidade e a qualidade da alimentação, mas também intensifica riscos de saúde específicos para as mulheres. Reconhecer e enfrentar essas disparidades é crucial para avançar rumo a uma sociedade mais justa e saudável.

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