A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) foi confirmada em 547 brasileiros entre 2005 e 2021, período que inclui o falecimento do influenciador Lito Sousa, ocorrido na última quinta‑feira, 1º de outubro, em São Paulo. O Ministério da Saúde divulgou os números após analisar 1.576 notificações suspeitas registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
Panorama nacional dos casos
Os dados revelam que, nos primeiros 17 anos de vigilância compulsória, pouco mais de um terço das suspeitas recebeu diagnóstico definitivo de DCJ. O Sudeste lidera o quadro, seguido pelas regiões Sul e Nordeste, enquanto o Centro‑Oeste e o Norte apresentaram menor incidência.
São Paulo concentra 202 casos confirmados, representando 37% do total nacional, um reflexo da densidade populacional e da maior capacidade de diagnóstico da capital.
Outras unidades federativas com números relevantes incluem Rio de Janeiro (45 casos), Minas Gerais (38) e Paraná (34). As demais regiões somam os casos restantes, mantendo a tendência de concentração nas áreas mais urbanizadas.
Perfil da doença e dados epidemiológicos
A faixa etária mais atingida varia entre 55 e 74 anos, agrupando 60,2% das notificações. A idade média dos pacientes suspeitos foi de 66 anos, indicando que a DCJ afeta predominantemente a população idosa.
Os sintomas iniciais são inespecíficos e podem incluir perda de memória, alterações de comportamento, dificuldade de locomoção, desequilíbrio e movimentos involuntários. Essa variedade dificulta o diagnóstico precoce.
- Comprometimento cognitivo rápido
- Alterações de humor e personalidade
- Rigidez muscular e perda de coordenação
- Visão embaçada e dificuldades de fala
Segundo a literatura científica adotada pelo Ministério da Saúde, cerca de 90% dos pacientes falecem entre seis meses e um ano após o início dos sintomas, com sobrevida média de cinco meses.
Os casos registrados no Brasil são da forma esporádica da doença, que não tem relação com a alimentação. Nenhum caso da variante associada à encefalopatia espongiforme bovina – popularmente conhecida como “doença da vaca louca” – foi identificado desde 2005.
Impacto e esclarecimentos sobre a variante da vaca louca
A confusão entre a DCJ e a variante da vaca louca costuma surgir quando um caso ganha grande repercussão, como o de Lito Sousa. No entanto, a forma esporádica, responsável pela maioria dos diagnósticos, ocorre de maneira independente de consumo de carne contaminada.
Estudos internacionais estimam entre um e dois casos por milhão de habitantes por ano, mesmo em países com sistemas de vigilância avançados, como o Reino Unido.
Os príons, agentes infecciosos da DCJ, já estão presentes no cérebro, mas se tornam patológicos ao sofrer deformação, desencadeando um efeito dominó que leva à degeneração neuronal.
Ao contrário de células cancerígenas, os príons não se multiplicam; eles induzem a mudança de outras proteínas normais, acelerando a progressão da doença.
No caso de Lito Sousa, o diagnóstico foi anunciado em vídeo no dia 21 de agosto. Em poucas semanas, ele apresentou perda de mobilidade, dificuldades de fala e visão, refletindo a rapidez da evolução clínica.
Especialistas ainda não identificam o fator desencadeador da forma esporádica, o que mantém a doença como um desafio para a comunidade médica.
Outras doenças priônicas, ainda mais raras, incluem a síndrome de Gerstmann‑Sträussler‑Scheinker e a insônia fatal, que impede o paciente de dormir.
O Ministério da Saúde reforça a importância da notificação de casos suspeitos, pois o monitoramento adequado permite a rápida resposta de saúde pública e a produção de dados epidemiológicos confiáveis.
Embora não exista cura, o acompanhamento multidisciplinar pode melhorar a qualidade de vida nos estágios iniciais, aliviando sintomas como dor, ansiedade e distúrbios do sono.
Para a população, reconhecer os sinais de alerta e buscar avaliação neurológica diante de alterações súbitas de memória ou coordenação pode acelerar o encaminhamento para exames específicos, como ressonância magnética e análise de líquor.
Em resumo, a DCJ permanece uma condição rara, de evolução rápida e alto índice de mortalidade, exigindo atenção tanto dos profissionais de saúde quanto da sociedade para evitar diagnósticos tardios.








