Em 30 de junho de 2024, duas organizações da sociedade civil divulgaram um levantamento sobre as propostas de saúde dos seis candidatos à Presidência que têm 2% ou mais de intenção de voto. O estudo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e pela Umane, analisou 95 projetos, apontando como a maioria deles já tem correspondentes na rede pública.
Principais achados do levantamento
Os dados mostram que 95% das propostas exigiriam recursos adicionais, indicando que o orçamento atual da saúde já é insuficiente para atender às demandas. Além disso, 56% das ideias já têm programas em vigor no SUS, ainda que os candidatos as apresentem como novidades.
Outro ponto crítico é a falta de detalhamento: quase metade das propostas (47%) não explicam como seriam executadas, limitando‑se a intenções genéricas sem indicar fontes de financiamento.
- 83% das medidas dependem de coordenação entre estados e municípios;
- 25 milhões de brasileiros apostaram online em 2025, gerando um custo social de R$ 38,8 bilhões por ano;
- 29% dos estabelecimentos do SUS ficam a menos de 500 m de áreas de risco geológico.
Comparativo entre os candidatos
O relatório comparou as propostas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Cada candidato apresentou um conjunto de objetivos, mas o padrão foi a continuidade de políticas já existentes, como o PADI Brasil, o PNR‑SUS e o programa “Agora Tem Especialistas”.
Alguns diferenciais foram identificados:
- Lula destacou quinze ações com metas para 2030, apoiadas em regulação da fila e federalismo cooperativo, apresentando a maior proporção de propostas detalhadas (76%).
- Romeu Zema propôs linhas de cuidado específicas para infarto, AVC e doenças raras, sem equivalentes nos demais planos.
- Flávio Bolsonaro sugeriu maior espaço para o setor privado, incluindo contratos para usar a capacidade ociosa de hospitais e clínicas.
- Augusto Cury foi o único a propor o reajuste da Tabela SUS vinculada ao CPF, sem indicar nova fonte de recursos.
Apesar das variações, nenhum dos projetos exigiu a criação de leis novas, e apenas 14% demandaram pactuação ampla entre os entes federados. O principal obstáculo permanece o financiamento, já que todas as propostas requerem recursos extras.
Desafios ignorados e lacunas nas propostas
O estudo apontou que muitas iniciativas tratam de forma superficial questões críticas, como os impactos das mudanças climáticas, das apostas online e do ambiente digital na saúde. Por exemplo, a proposta de usar o CPF como identificador no SUS já está regulamentada desde 2025, mas os candidatos demonstram desconhecimento das políticas vigentes.
Em relação à saúde mental, o ECA Digital entrou em vigor em março de 2024, porém a fiscalização das plataformas ainda é frágil. Nenhum plano abordou a regulação do ambiente digital como mecanismo de proteção para crianças e adolescentes.
Além disso, a vulnerabilidade dos estabelecimentos de saúde situados próximos a áreas de risco geológico não recebeu atenção suficiente. Embora 29% desses hospitais estejam a menos de 500 m de zonas de risco, os projetos tratam a adaptação climática apenas como pauta ambiental, sem integração com a rede SUS.
Por fim, a questão das apostas online, que afeta milhões de brasileiros, foi reduzida a um problema de orçamento familiar, sem propostas de políticas de prevenção ou tratamento de transtornos relacionados ao jogo.
Em síntese, o levantamento evidencia que grande parte das propostas de saúde dos candidatos são extensões ou repetições de programas já existentes, mas carecem de detalhamento, fontes de financiamento claras e respostas às novas demandas da população.








