O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou nesta segunda‑feira (28) a intenção do governo federal de disponibilizar canetas de semaglutida – conhecidas como canetas emagrecedoras – a milhões de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta prevê um gasto anual de aproximadamente R$ 1,5 bilhão, embora ainda não estejam definidos o público‑alvo exato nem a data de início da oferta.
Plano do governo e a estratégia de Padilha
Segundo Padilha, a medida não se trata de um “milagre estético”, mas de uma terapia que, combinada com mudanças de dieta e prática regular de atividade física, pode gerar impactos positivos na saúde pública e reduzir custos futuros do sistema. O ministro destacou que a negociação com fabricantes deve resultar em descontos de 80% a 90% nos preços, graças ao volume de compras e à produção nacional.
O Ministério da Saúde solicitou à Conitec a elaboração de um protocolo de uso para pacientes com obesidade, estimando que cerca de 25% da população brasileira se enquadre nesse critério. A comissão técnica, por sua vez, precisará definir recortes mais precisos, como grau de obesidade, presença de diabetes ou outras comorbidades, para garantir a eficácia e a sustentabilidade financeira do programa.
Para ampliar a capacidade de produção, o governo pretende firmar parcerias de transferência de tecnologia entre laboratórios públicos e farmacêuticas privadas. Essa estratégia visa evitar a dependência de importações, como ocorreu recentemente com a insulina, e garantir o abastecimento contínuo dos medicamentos.
Desafios técnicos e econômicos apontados pela Conitec
A Conitec rejeitou três vezes, nos últimos anos, a incorporação das canetas de semaglutida ao SUS. Em agosto de 2025, a comissão negou o pedido da Novo Nordisk ao estimar um custo de R$ 6,8 bilhões em cinco anos, atendendo apenas algumas dezenas de milhares de pacientes. Na análise de 2025, o custo anual por paciente foi calculado em mais de R$ 12 mil.
O ministério argumenta que, com descontos massivos e produção local, o preço poderia cair para cerca de R$ 1 mil ao ano, permitindo que 1,5 milhão de pacientes sejam beneficiados. No entanto, a Conitec também apontou a ausência de políticas intersetoriais integradas, que são essenciais para o sucesso de qualquer programa de tratamento da obesidade.
Para ilustrar os possíveis critérios de elegibilidade, a proposta do governo inclui:
- Obesidade grau II ou III (IMC ≥ 35);
- Diagnóstico de diabetes tipo 2;
- Presença de comorbidades como hipertensão ou doença cardiovascular;
- Participação em programas de acompanhamento nutricional e de atividade física;
- Falha em tratamentos convencionais de perda de peso.
Esses itens ainda serão refinados pela Conitec, que deverá entregar um relatório detalhado antes da decisão final.
Perspectivas para a produção nacional e o futuro dos tratamentos
A expectativa do governo é que, até 2026, mais de dez canetas contendo semaglutida estejam disponíveis no mercado brasileiro, ampliando a concorrência e pressionando ainda mais os preços para baixo. A parceria com laboratórios públicos pode transformar o Brasil em um hub de produção de análogos de GLP‑1, reduzindo vulnerabilidades de abastecimento.
Enquanto isso, a Novo Nordisk apresentou uma nova proposta à Conitec, focada em um público mais restrito – pacientes com obesidade que já sofreram infarto – estimando um custo anual entre R$ 500 milhões e R$ 650 milhões para cerca de 39 mil usuários. Padilha afirma que a proposta governamental é mais abrangente e tem potencial de “superar” a iniciativa da empresa.
Se o preço médio for efetivamente reduzido para R$ 1 mil por paciente ao ano, o orçamento de R$ 1,5 bilhão permitiria tratar aproximadamente 1,5 milhão de brasileiros, representando um avanço significativo na política de combate à obesidade no país.
Entretanto, especialistas alertam que a simples disponibilização do medicamento não será suficiente. É imprescindível a implementação de políticas intersetoriais que integrem saúde, educação, assistência social e urbanismo, garantindo ambientes que favoreçam hábitos alimentares saudáveis e a prática de exercícios físicos.
O debate continua aberto, e a decisão final da Conitec deverá considerar tanto os aspectos financeiros quanto a efetividade clínica e a capacidade de produção nacional. O próximo relatório da comissão será decisivo para definir se as canetas de semaglutida entrarão de fato no rol de medicamentos do SUS.








