Uma investigação do G1 revelou que grupos criminosos estão usando o TikTok como fachada para anunciar a venda de material de abuso sexual infantil, enquanto as transações são concluídas no aplicativo de mensagens Telegram. O esquema foi identificado ainda neste ano, envolvendo contas bancárias de terceiros e o sistema de pagamentos instantâneos PIX. As autoridades alertam que, apesar das promessas de anonimato, as operações deixam rastros que podem ser seguidos pela polícia.
Vitrine digital: o papel do TikTok na divulgação do crime
Os agressores criam perfis falsos no TikTok e postam vídeos curtos que parecem desafios ou conteúdos de entretenimento, mas que contêm chamadas para a compra de material ilícito. Em poucos segundos, o algoritmo da plataforma amplia o alcance desses vídeos, permitindo que milhares de usuários vejam o convite para acessar links externos.
Quando o usuário clica no link, é redirecionado para um canal privado no Telegram, onde o vendedor disponibiliza catálogos de arquivos. O TikTok afirma que remove rapidamente qualquer conteúdo que viole suas políticas e bane as contas envolvidas, mas a rapidez da remoção nem sempre impede a disseminação inicial.
Os investigadores apontam que a estratégia funciona porque o TikTok ainda não possui ferramentas de detecção automática tão avançadas quanto as de plataformas de mensagens, o que cria uma janela de oportunidade para os criminosos.
Telegram como mercado negro e o uso do PIX
No Telegram, os criminosos organizam grupos fechados e canais exclusivos, onde oferecem pacotes de vídeos e imagens de abuso sexual infantil. Cada pacote tem um preço definido, e o pagamento é exigido via PIX, que supostamente garantiria anonimato ao comprador.
Um dos suspeitos confessou usar a conta bancária de uma suposta “menina” para receber os pagamentos, alegando que o comprador não seria rastreado. Na prática, o PIX gera um registro de transação que pode ser analisado pelas autoridades, contradizendo a afirmação de impunidade.
Os valores praticados variam conforme a quantidade de conteúdo oferecido. Entre os preços anunciados estão:
- US$ 25 (cerca de R$ 130) para acesso a um grupo privado com milhares de vídeos;
- US$ 11,99 (cerca de R$ 62) para um pacote menor;
- US$ 17,50 (cerca de R$ 90) para um conjunto intermediário;
- R$ 10 por 3 GB de arquivos;
- R$ 35 por 15 GB de arquivos;
- R$ 20 por acesso vitalício ao canal.
Antes de concluir a compra, o vendedor costuma enviar um vídeo autodestrutivo que desaparece após a primeira visualização, servindo como amostra do material. Após a confirmação do pagamento, os arquivos são enviados diretamente na conversa do Telegram.
Embora os criminosos aleguem que o uso do PIX elimina rastros, bancos e fintechs costumam monitorar transações atípicas. Quando um pagamento vem de regiões diferentes ou em volumes incomuns, o sistema pode bloquear a conta ou sinalizar a operação para investigação.
Resposta das plataformas e ações das autoridades
O Telegram declarou que proíbe o compartilhamento de conteúdo de abuso sexual infantil e que, somente neste ano, já removeu mais de 300 mil grupos e canais relacionados a esse tipo de material. A empresa afirma que colabora com as investigações policiais sempre que possível.
A Polícia Federal destaca que os agressores costumam utilizar contas bancárias de ex‑namoradas, familiares ou até da própria vítima para dificultar a ligação direta com o crime. Essa prática visa driblar o controle do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e do Banco Central.
Especialistas em segurança digital recomendam que os usuários denunciem imediatamente qualquer conteúdo suspeito nas plataformas, fornecendo capturas de tela, URLs e, se possível, informações sobre a conta que publicou o material.
Para quem deseja denunciar casos de abuso sexual infantil, o Disque 100 e o site da Polícia Federal disponibilizam canais de comunicação 24 horas por dia. As denúncias são essenciais para interromper a cadeia de exploração e levar os responsáveis à justiça.







